29.11.10
Dizer de boca (réplica nº2)
Tenho uma amiga que é farmacêutica e trabalha numa aldeola. Perguntou-me, muito séria, se eu alguma vez tinha tido a necessidade de aplicar a expressão "boca do corpo". Disse-lhe que não. Ela fez uma cara desiludida e disse-me que a malta do cinema não entende nada e nem sequer está sensibilizada para a complexidade linguística das utentes de Portugal.
Concordei com ela.
(Viva o Canesten Vaginal, a arminhar a poesia farmacêutica desde não-sei-quando)
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Dizer de boca (réplica nº1)
estende a tua mão contra a minha boca e respira,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo.
Humberto Helder no Ofício Cantante.
(btw, o Ofício Cantante foi o livro que mais vezes embrulhei contrariada porque nunca nenhum era para mim. Achava que nenhum dos clientes da livraria onde trabalhei o merecia... bem, pelo menos enquanto eu não tivesse um para mim... que ainda não tenho, caso algum familiar esteja a ler este post. Oh, jingle bells, jingle bells. Jingle all the way... la la la).
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Dizer de boca
- Sabe, o meu pai não é homem para escrever. Assinava o seu nome tão bem como qualquer outro e até lambia o lápis. Mas cartas, nunca escreveu. Dizia muitas vezes que aquilo que se não podia dizer de boca, também não valia a pena pôr no papel.
em As Vinhas da Ira de Jhon Steinbeck
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Frio Vs Amor
Enquanto conduzo pela cidade vazia a caminho de minha casa passo por 3 ou 4 pessoas. Cada uma delas caminha completamente sozinha pelo frio da rua. Cabisbaixo, claro, numa destas noites aveirenses onde a tempestade concentra-se nos ossos e o corpo se reflecte como um escudo protector.
Não tenho pena delas. Só há um motivo que as faça sair de casa. Se se deslocam a estas horas é porque vão fazer amor. Alegro-me.
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22.11.10
All together
Como é tão raro vê-los no mesmo plano, aqui estão! Funcionam tão bem cada um no seu lado (da câmara) porque lado a lado são tudo isto.
Adriano Sodré do nosso querido Interlúdio.
Teresa Queirós do Interlúdio (também) e do An itsy bitsy self.
Fotografia minha
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20.11.10
19.11.10
16.11.10
15.11.10
bang bang (réplica nº1)
Não é uma operação de associação, mas de diferenciação, como dizem os matemáticos, ou de desaparecimento, como dizem os físicos: um potencial estando dado, é necessário escolher outro, não qualquer mas de tal maneira que uma diferença de potencial se estabeleça entre os dois, que seja produtor de um terceiro ou de qualquer coisa de novo.
Deleuze
Fotograma do filme La Double Vie de Veronique, de Krzysztof Kieslowski, 1991
12.11.10
Pão e cigarros
São crianças e pediram-me uma das cadeiras da minha mesa. Dei. Depois levaram-me o isqueiro e o cinzeiro. Dei. Pediram pão e comeram. Agora fumam-me cigarros de paciência com bolas de pão mastigado no canto da boca.
Fotografia de Joseph Szabo, 1969
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contas vezes contas
Sem mais sete vezes trinta e uma oportunidades de falhar, fico eu sem menos trinta e uma vezes sete oportunidades de te dizer que não sei onde vou parar. Ficas tu duzentas e dezassete vezes com tudo, dás-me duzentas e dezassete vezes o tudo ou nada da nossa vontade de fugir.
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10.11.10
Faz o frio ou Detesto dormir cheia de roupa
Tenho 3 pares de meias calçadas, uns leggings e umas calças de pijama, duas camisolas de algodão e um casaco de lã. Tenho lençóis, edredão, uma manta e 3 cobertores... Carambas, isto podia resolver-se de forma tão mais simples...
4.11.10
S.
JACK- (...) Esvaziei a minha carteira. Era de esperar que um miúdo aceitasse subornos: mas tu não. (pausa) Ele [o Pai] já se tinha ido embora há um ano, quando tu fizeste oito anos e começaste a desmaiar. Na escola andavas a desmaiar a toda a hora, a professora ligava-me, eu dizia-lhe que era de família. (tempo) Sabes aquele sonho? Estamos a caminhar à beira de um precipício e está vento e escorregadio, estamos os dois lá em cima e tu és pequeno e estás a fazer disparates, não me prestas atenção e eu estou mesmo a ver o que vai acontecer e depois tu Cais. Escorregas-me da mão e cais no precipício. Eu vejo-te no ar, a cair, a ficar mais pequeno, e depois Desapareces.
Pausa
Então comecei a falar. Contei-te tudo sobre o pai. Tudo aquilo que me viesse à cabeça. Punha um prato com comida à tua frente, um copo de leite, um bocado de pão. Tu ouvias-me como se eu fosse um Deus a falar e comias o que eu te pusesse à frente.
Excerto da peça "Num dia igual aos outros" de John Kolvenbach.
(Este tipo; és tu a falar-me. E aquela da imagem és tu, e sou eu a ver-te enquanto caio.)
Fotografia da Annie
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É assim que eu faço
"Havia muitas formas de fazer isto.Tu pegaste isto pelos tomates.": foi, até hoje, o melhor elogio que um Professor me deu.
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Cortei o fora e o dentro
Cortei o fora e o dentro. Estou dentro; encostada às portadas. Estou fora; espalhada nas luzes que resistem.
Fotografia da Annie
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