Preferiria ficar calada a dar-lhe nomes, mas em toda a ostentação do problema não consigo deixar de ousar mostrar a minha fraca apreciação política. É que entre a patetice (como quem atira barro à parede) e a manipulação já nem sequer dissimulada, há todo um país que não se despacha.
Quando alguém diz: "O chamado caso das escutas é meramente político", é triste. Porque um dia ensinaram-me o que era a Política e a Democracia, e não tinha nada que ver com isto. Por certo, a estória da Política (entenda-se aqui: a portuguesa) parece-me um conto infantil clássico, mas contado apenas até meio; ou melhor, deixado nos preparativos de acender uma lareira. Aí, exactamente.
Ilustração do conto Hansel & Gretel dos irmãos Grimm por Arthur Rackham
- Então, e o que é que estás a fazer?
- A ver um filme!
- Olha Ana, e se te metesses a estudar? Isso sim, é que era!
- Pai, mas faz parte... este é o meu trabalho.
(ouço-o resmungar algo indecifrável do outro lado)
- Ver um filme...aiii (e suspira)
Estive com muita atenção a ver a gala dos Goya. Por uma razão muito simples: porque sei que amanhã, em Espanha, não se falará de outra coisa na imprensa, na televisão, nas salas de aula e nos cafés.
Com muita pena minha, não perderia muito tempo com os nossos (portugueses) Globos de Ouro. Aqui reside a diferença dos nossos cinemas.
Ainda sobre os Goya, fiquei com enorme curiosidade em ver Celda 211 que ainda não tive oportunidade.
Não posso negar uma certa tristeza quanto às minhas esperanças quebradas no não premiado filme Los Abrazos Rotos de Pedro Almodóvar (com excepção na categoria de música original cujo prémio foi atribuído a Alberto Iglesias). Pelos vistos eu devo ser a única a achar que é um filme sublime. Desculpem-me a ousadia, mas é uma tal declaração de amor ao cinema, que me toca mais profundamente do que a que fez Tarantino em Inglourious Basterds neste mesmo ano. A Pénolope Cruz foi embora da cerimónia mais cedo e tudo.
Para consagrar a minha admiração, e bem sei que estou um pouco obcecada com o tema, mas, Los Abrazos Rotos imprime em película o meu último tema de eleição: os fulgores narrativos emergentes das relações dos realizadores com as suas actrizes. Vá, prometo mudar de tema muito em breve.
Para terminar: acho que o Amenábar tem cara de matemático ou físico.
(Não tenho certeza quanto ao tempo verbal, em francês, da primeira frase. Foi o que consegui entender do meu fraco fraquinho francês. ACTUALIZAÇÃO: A Mena já me ensinou, boa!)
Fotograma de Pierrot le fou, de Jean-Luc Godard, 1965
Je suis d'un autre pays que le vôtre, d'un autre quartier, d'une autre solitude.
Je m'invente aujourd'hui des chemins de traverse.
Je ne suis plus de chez vous, j'attends des mutants.
Biologiquement je m'arrange avec l'idée que je me fais de la biologie: je pisse, j'éjacule, je pleure.
Il est de toute première instance que nous faconnions nos idées comme s'il s'agissait d'objets manufacturés.
Je suis prêt à vous procurer les moules.
Mais, la solitude.
Les moules sont d'une texture nouvelle, je vous avertis.
Ils ont été coulés demain matin.
Si vous n'avez pas dès ce jour, le sentiment relatif de votre durée,
il est inutile de regarder devant vous car devant c'est derrière, la nuit c'est le jour.
Et la solitude.
Il est de toute première instance que les laveries automatiques, au coin des rues,
soient aussi imperturbables que les feux d'arrêt ou de voie libre.
Les flics du détersif vous indiqueront la case où il vous sera loisible de laver ce que vous croyez être votre conscience et qui n'est qu'une dépendance de l'ordinateur neurophile qui vous sert de cerveau.
Et pourtant la solitude.
Le désespoir est une forme supérieure de la critique.
Pour le moment, nous l'appellerons "bonheur",
les mots que vous employez n'étant plus "les mots" mais une sorte de conduit à travers lequels, les analphabètes se font bonne conscience.
Mais la solitude.
Le Code civil nous en parlerons plus tard.
Pour le moment, je voudrais codifier l'incodifiable.
Je voudrais mesurer vos danaides démocraties.
Je voudrais m'insérer dans le vide absolu et devenir le non-dit,
le non-avenu, le non-vierge par manque de lucidité.
Ingrid Bergman em Stromboli de Roberto Rossellini, 1950
Harriet Andersson em Sommaren med Monika de Ingmar Bergman, 1953
Anna Karina em Pierrot le Fou de Jean-Luc Godard, 1965
Sandrine Bonnaire em À nos amours de Maurice Pialat, 1983
E depois há um olhar que é só para eles, um jeito desajeitado que não compreendemos ou uma câmara que foge por estar no limite entre amar a captura da imagem e o ciúme.
Eles chamaram-me absurda. E eu gostei, pois está claro! Respondi com uma grande 'absurdice' geral. Ali! Pintada no meio da testa. Não havia nada mais a fazer, o resto são as suas próprias palavras.
O meu computador está a morrer mas eu ainda vou respirando a sôfrega esperança de poder voltar a matá-lo.
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28.1.10
Dia1- Interior. Casa dele nº1
Ele bebia consecutivamente três copos de água, três vezes ao dia, três minutos depois de olhar nos olhos dela. Sabia que um dia ia conseguir. Era uma questão de imortalizar o ritual até que deixasse de ser um sacrifício.
Dia 13- Interior. Casa dele nº2
-Hoje ficas na minha casa. Não haverá mais copos para lavar, nem dores de costas. Deitas-te e eu meto as mãos no teu abdómen, e pensamos no teu rebento, só teu. Mas quero que saibas que eu não…
Ela chora.
Dia 28- Interior. Casa dele nº1
Ajoelhada limpava o chão minuciosamente. As mãos percorriam cada azulejo três vezes consecutivas. O rubor da face desmascarava-a.
Ele olhou-a nos olhos e soube. Tinha conseguido. Passaram mais que três minutos e não bebeu água. Ele correu para a casa de banho e urinou para um teste de gravidez. Deu positivo.
Por vezes, tivemos uma certa dificuldade na percepção das características da face inferior, devido ao tipo particular de matéria-prima -quartzo e quartzito -, que proporciona, contrariamente ao sílex, um ténue bolbo de uma região conchóide irregular.
Isidro M. T. Gomes, in Estudo do Material Litigo de Castro de Palheiros
"Por vezes só assustam. Abrem uma fenda na pele e depois fecham-na. Arrumam os aparelhos. Dizem : nenhuma doença; e sorriem. Afastam-se, e tu começas a vestir-te.
Outras vezes é diferente. Fazem pequenos cortes. Tocam-te com os aparelhos. Tiram coisas do teu corpo, não interessa o quê; não magoam."
Estar do outro lado não abona a favor do desespero. O vento encarrega-se de apontar meia direcção. Já o corpo não cede ao vício de dar um passo atrás. Nunca mais, disse-me. E eu fiquei só, do outro lado.
1- Jo no parlo català
Da minha puta aula de Cinema, història i document, eu só percebo coisas tipo: tutó chó, ji chó, reflexó, nu xabia ningú, segú, segú e Agnès Varda. Quando ouço Agnès Varda, é ver-se os meus músculos faciais a relaxarem, por meio segundo que seja, da profunda concentração; e acho que fico a perceber tudo, mas a verdade é que não.
2- Ainda sobre a minha aula de Cinema, història i document, eu acho que aquela mulher (a professora) tem a bacia quadrada. O peito nem é muito grande mas ali a zona da bacia não se articula muito bem. Enquanto ela fala mete os braços para trás, com as mãos muito juntinhas como quem está a traficar bilhetes de cinema para os filmes do Luis Buñuel filmados nas Hurdes.
3- Eles dizem atrevido; eu prefiro dizer perverso.
4- A gaja deve ter vagina de atleta. *
5- Fui ver Where The Wild Things Are e eu é que vim de lá selvagem de tão fodida. A única coisa que me acalmou os nervos foi a mulher que estava ao meu lado no cinema que começou a chorar naquela decadente/desesperante despedida entre os monstros e o miúdo. Não há paciência. E a outra a chorar. O sofrimento alheio deixa-me sensibilizada, todos sabem disso.
*Peço desculpa às almas mais susceptíveis. Mas associar pé de atleta com vagina é priceless.
Os meus sonhos acordam comigo, acumulados no tutano. E há sonhos para todos os géneros cinematográficos. À imagem movimento ou à imagem tempo, é tudo bem real. Talvez o mais curioso é que eu sonhe com personalidades mais ou menos conhecidas. Pois bem, com a minha querida Inês de Medeiros é compreensível. Ainda hoje de manhã tenho perfeita noção de ter sonhado que tomávamos o nosso primeiro café e fumávamos o nosso primeiro cigarro do dia nos escritórios amarelados do cinema São Jorge. E abraçávamo-nos, por entre jornais, pelas nossas ausências.
Por outra parte, sonhar com o Pedro Mexia, não tem nenhuma razão de ser (só o vi um par de vezes na minha vida, sendo que uma delas, ele estava a negociar templates com a Menina Limão numa esplanada no Rossio). Ah, também já sonhei com a Menina Limão, mas isso fica para outro post.
Agora, muito mais estranho que isto é sonhar com a Adília Lopes, que eu nunca vi em carne e osso. Só guardo uma vaga imagem imaginária depois de me terem contado que ela ia para a Bertrand do Chiado vender os seus próprios livros (tipo aquelas senhoras que fazem exibições das magníficas propriedades do Tupperware em centros comerciais). Sendo já o cenário burlesco, tudo se transforma quando sonho que alguém me tinha vendido à Adília Lopes. O negócio era simples: a Adília pagava para ter sexo comigo. Eu, aflita comecei a correr por Lisboa inteira, mas a poetiza previa as minhas fugas e através dos seus poemas teletransportava-se para onde eu estava. E eu corria, corria. E ela encurralava-me. Até que ficámos presas numa sala de teatro do São Luís e eu…eu acordei.
Ele é de facto a única pessoa no mundo que realmente envia os beijos virtualmente enviados por outrem, aos respectivos destinatários.
Por isto, agradecemos.
Discurso dele:
“Obrigado pelo reconhecimento de ser, de facto, a única pessoa no mundo a entregar os beijos mandados por outrem. De facto, desde pequeno que tenho esta ambição, tendo trabalhado muito nesse sentido. Tendo tido mesmo que assassinar um venezuelano que fazia o mesmo, de modo a que fosse eu, verdadeiramente, a única pessoa do mundo a fazê-lo. Não se preocupem, ele também me queria matar pelas mesmas razões, por isso, foi justo. Não me alargando mais para não perturbar os frágeis corações das minhas emocionadas admiradoras, aguardo com expectativa o cheque do meu prémio, referente à quantia de 3 milhões de euros, ou, em alternativa, postais na minha caixa de correio.”
Legendas da minha magnífica ilustração (note-se que a minha habilidade para o desenho é tão grande que desenvolvi uma extraordinária capacidade para desenhar e contar histórias ao mesmo tempo):
1- O patinho foi à feira
2- A meio do caminho foi contra uma árvore (espero que não consigam ler pela fotografia porque só meti duas perninhas na letra m da palavra "uma")
e pronto, é isto que há. Hey, eu nunca prometi nada melhor.
Ler entrevistas a Gilles Deleuze num domingo chuvoso não dá coisa boa.
Ouvir One from the Heart num domingo chuvoso não dá coisa boa.
Um domingo chuvoso não dá coisa boa.
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Nem pensar que se rouba um coração com outro aberto. Não funciona porque nunca é suficiente.
Para assegurar o anonimato dos intervenientes do post anterior, dei-me ao trabalho de dar falsos nomes a todos os meus amigos. É curioso as pessoas perguntarem quem são, ou se são a Luísa, o "ele" ou o não-sei-quem-mais. Ou então dizerem-me: já sei quem são todos, menos o Bruno. Quem é?
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10.1.10
Eu estava no comboio e ele ligou-me desde Aveiro a perguntar o que é que o namorado da Luísa estava a fazer a cantar no coro, ao lado dos seus pais. Respondi que ele é todo das cantorias e perguntei se não estava também o Vicente. Respondeu-me que não. Lembrei-me que nesse dia eu tinha almoçado em Lisboa com a Luísa, a Beatriz (namorada do Vicente), com o Martim, a Maria e a Anne. O namorado da Anne está em Coimbra. A Anne dizia-me o quanto queria que a sua mãe e irmão viessem da Alemanha para a visitar em Lisboa. Ainda no comboio, o meu pai ligou-me a perguntar se jantávamos no Porto. Disse-lhe que sim. Depois de jantar, tomo café com o Vasco e vou dormir ao Miguel, claro. E eu no comboio. Hoje fui e vim a Lisboa. Para onde vou? Leio o Não-Lugares do Marc Augé. Em Lisboa despedi-me da minha irmã num táxi a caminho da estação de comboios. Disse à minha irmã que a amava à frente do taxista e ela saiu no Camões. Chorei no táxi. O taxista começou-me a falar das obras no Terreiro do Paço. O Bruno encontrou-me na estação para nos despedirmos. Já estou no Porto, são 6:30 da manhã e apanho um avião para Barcelona.
Fotograma de Lost In Translation de Sofia Coppola.
Este ano só me quero ver cair.
Desmoronar-me no chão, cair do pedestal, ser choro e ranger de dentes.
Este ano só me quero ver cair.
E mais. Quero que todos o vejam, e o vejam bem! Comprem bilhetes, marquem lugares, apertem-se à entrada.
Este ano só me quero ver cair.