Disse-lhe que partia na manhã seguinte. A pulsação subiu para o olhar e os interlocutores ficaram pequenos. Perguntei-lhe se queria alguma coisa de lá. Sorriu de soslaio, meteu-me a mão na cara e movimentando a cabeça disse-me: Que vuelvas tu Ana, quiero que tu vuelvas.
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18.3.10
Sim. Eu sempre afirmei o amor em relação à ideia de retorno.
Volta-se, sim.
Mas nunca da mesma meneira.
Faço-me entender?
Mal se abrem as portas para um inteiro desastre não me venham dizer quem é o personagem débil. Eu quero saber onde raio está a subtileza, onde raio está a verdade.
Fotograma de A Woman Under the Influence de John Cassavates, de 1974
Não fui eu quem lhe pediu para se sentar. Porque se sentou? Remexeu os papéis que estavam pela mesa. Não se interessava por nada. Era um indolente, um insolente. Fixou-me o olhar e eu não me podia mover. Disse-lhe: "Estás a magoar-me; deixa-me ir". Respondeu-me: "Não te estou a tocar. Queres que te toque?". Calei-me.
Isto não parou de tocar toda a semana. Recomendo que se ouça a música Porquê? seguida da Odeio.
E para acordar uma casa inteira nada melhor que a Outro.
Na Porquê, temos isto, que é isto tudo:
Estou-me a vir E tu, como é que te tens por dentro? Porque não te vens também?
Preferiria ficar calada a dar-lhe nomes, mas em toda a ostentação do problema não consigo deixar de ousar mostrar a minha fraca apreciação política. É que entre a patetice (como quem atira barro à parede) e a manipulação já nem sequer dissimulada, há todo um país que não se despacha.
Quando alguém diz: "O chamado caso das escutas é meramente político", é triste. Porque um dia ensinaram-me o que era a Política e a Democracia, e não tinha nada que ver com isto. Por certo, a estória da Política (entenda-se aqui: a portuguesa) parece-me um conto infantil clássico, mas contado apenas até meio; ou melhor, deixado nos preparativos de acender uma lareira. Aí, exactamente.
Ilustração do conto Hansel & Gretel dos irmãos Grimm por Arthur Rackham
- Então, e o que é que estás a fazer?
- A ver um filme!
- Olha Ana, e se te metesses a estudar? Isso sim, é que era!
- Pai, mas faz parte... este é o meu trabalho.
(ouço-o resmungar algo indecifrável do outro lado)
- Ver um filme...aiii (e suspira)
Estive com muita atenção a ver a gala dos Goya. Por uma razão muito simples: porque sei que amanhã, em Espanha, não se falará de outra coisa na imprensa, na televisão, nas salas de aula e nos cafés.
Com muita pena minha, não perderia muito tempo com os nossos (portugueses) Globos de Ouro. Aqui reside a diferença dos nossos cinemas.
Ainda sobre os Goya, fiquei com enorme curiosidade em ver Celda 211 que ainda não tive oportunidade.
Não posso negar uma certa tristeza quanto às minhas esperanças quebradas no não premiado filme Los Abrazos Rotos de Pedro Almodóvar (com excepção na categoria de música original cujo prémio foi atribuído a Alberto Iglesias). Pelos vistos eu devo ser a única a achar que é um filme sublime. Desculpem-me a ousadia, mas é uma tal declaração de amor ao cinema, que me toca mais profundamente do que a que fez Tarantino em Inglourious Basterds neste mesmo ano. A Pénolope Cruz foi embora da cerimónia mais cedo e tudo.
Para consagrar a minha admiração, e bem sei que estou um pouco obcecada com o tema, mas, Los Abrazos Rotos imprime em película o meu último tema de eleição: os fulgores narrativos emergentes das relações dos realizadores com as suas actrizes. Vá, prometo mudar de tema muito em breve.
Para terminar: acho que o Amenábar tem cara de matemático ou físico.
(Não tenho certeza quanto ao tempo verbal, em francês, da primeira frase. Foi o que consegui entender do meu fraco fraquinho francês. ACTUALIZAÇÃO: A Mena já me ensinou, boa!)
Fotograma de Pierrot le fou, de Jean-Luc Godard, 1965
Je suis d'un autre pays que le vôtre, d'un autre quartier, d'une autre solitude.
Je m'invente aujourd'hui des chemins de traverse.
Je ne suis plus de chez vous, j'attends des mutants.
Biologiquement je m'arrange avec l'idée que je me fais de la biologie: je pisse, j'éjacule, je pleure.
Il est de toute première instance que nous faconnions nos idées comme s'il s'agissait d'objets manufacturés.
Je suis prêt à vous procurer les moules.
Mais, la solitude.
Les moules sont d'une texture nouvelle, je vous avertis.
Ils ont été coulés demain matin.
Si vous n'avez pas dès ce jour, le sentiment relatif de votre durée,
il est inutile de regarder devant vous car devant c'est derrière, la nuit c'est le jour.
Et la solitude.
Il est de toute première instance que les laveries automatiques, au coin des rues,
soient aussi imperturbables que les feux d'arrêt ou de voie libre.
Les flics du détersif vous indiqueront la case où il vous sera loisible de laver ce que vous croyez être votre conscience et qui n'est qu'une dépendance de l'ordinateur neurophile qui vous sert de cerveau.
Et pourtant la solitude.
Le désespoir est une forme supérieure de la critique.
Pour le moment, nous l'appellerons "bonheur",
les mots que vous employez n'étant plus "les mots" mais une sorte de conduit à travers lequels, les analphabètes se font bonne conscience.
Mais la solitude.
Le Code civil nous en parlerons plus tard.
Pour le moment, je voudrais codifier l'incodifiable.
Je voudrais mesurer vos danaides démocraties.
Je voudrais m'insérer dans le vide absolu et devenir le non-dit,
le non-avenu, le non-vierge par manque de lucidité.
Ingrid Bergman em Stromboli de Roberto Rossellini, 1950
Harriet Andersson em Sommaren med Monika de Ingmar Bergman, 1953
Anna Karina em Pierrot le Fou de Jean-Luc Godard, 1965
Sandrine Bonnaire em À nos amours de Maurice Pialat, 1983
E depois há um olhar que é só para eles, um jeito desajeitado que não compreendemos ou uma câmara que foge por estar no limite entre amar a captura da imagem e o ciúme.
Eles chamaram-me absurda. E eu gostei, pois está claro! Respondi com uma grande 'absurdice' geral. Ali! Pintada no meio da testa. Não havia nada mais a fazer, o resto são as suas próprias palavras.
O meu computador está a morrer mas eu ainda vou respirando a sôfrega esperança de poder voltar a matá-lo.
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28.1.10
Dia1- Interior. Casa dele nº1
Ele bebia consecutivamente três copos de água, três vezes ao dia, três minutos depois de olhar nos olhos dela. Sabia que um dia ia conseguir. Era uma questão de imortalizar o ritual até que deixasse de ser um sacrifício.
Dia 13- Interior. Casa dele nº2
-Hoje ficas na minha casa. Não haverá mais copos para lavar, nem dores de costas. Deitas-te e eu meto as mãos no teu abdómen, e pensamos no teu rebento, só teu. Mas quero que saibas que eu não…
Ela chora.
Dia 28- Interior. Casa dele nº1
Ajoelhada limpava o chão minuciosamente. As mãos percorriam cada azulejo três vezes consecutivas. O rubor da face desmascarava-a.
Ele olhou-a nos olhos e soube. Tinha conseguido. Passaram mais que três minutos e não bebeu água. Ele correu para a casa de banho e urinou para um teste de gravidez. Deu positivo.
Por vezes, tivemos uma certa dificuldade na percepção das características da face inferior, devido ao tipo particular de matéria-prima -quartzo e quartzito -, que proporciona, contrariamente ao sílex, um ténue bolbo de uma região conchóide irregular.
Isidro M. T. Gomes, in Estudo do Material Litigo de Castro de Palheiros