31.3.10

Ahaha, não fosse completamente ao contrário e eu ainda não me ria mais


O saldo do dia dela é espontâneo e honesto. Tinha medo de me parafrasear. Saiu isto:

nos últimos tempos ando a comer mais polla do que pollo. 

(a Joaquina vai deixar de dizer coisas destas, promete)

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Goodnight Irene, até ao próximo mês de Agosto


Ler isto. Mas não concebo outra leitura que não passe por duvidar de cada palavra. De cada uma. Que pica do caraças, pá! Estou a falar a sério.

Fotograma do filme Goodnight Irene de Paolo Marinou-Blanco, 2008


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30.3.10

Innocent when you dream (réplica nº2 ou a Menina Limão)



(ahah, encontrei isto no meio da tralha)

O sonho é muito antigo.
Não era fácil contá-lo, sabes? Acima de tudo porque deixava-me quase nua. E naquela altura eu ainda me importava com a minha nudez aos teus olhos.
Não sei porque razões, mas eu ia mudar de casa. Sempre me preocuparam as casas novas, porque achava que nenhuma casa teria o pé alto que desejava. Mas neste sonho era diferente. Amava cada canto da casa que me impuseram. Era forrada de tábua de madeiras cujas margens eram arredondadas, tinha um pátio com um jardim mal nascido e ainda se cheirava o velho limoeiro. Eu estava verdadeiramente completa naquele sítio. Deitava-me nas pedras frias do pátio e a minha pele ficava marcada com milhares de impressões arenosas. Não foi contigo que sonhei. Ainda não tinhas cara. Mas contaram-me que quem antes ali vivia eras tu. E eu corria descalça à procura das evidências. Encontrei gavetas com diferentes tipos de papel e muitos, muitos tubos de tinta.

Foi só isto.


Ah, e as minhas prendas

A primeira é um bocadinho de botânica ténue (que eu não gosto de ser confundida com outras), para te dizer o quanto te acho bonita. (Depois de um nosso primeiro encontro ficaste admirada quando te disse que não estava preparada para a tua cara. Não estava.)



A segunda é um dos meus textos favoritos de sempre, para te dizer o quanto és um monstro feio:


O corpo dela era todo errado.

Uma mulher senta-se no escuro de uma sala de cinema e pensa: não estou morta. O escuro de uma sala de cinema adensa as massas corpóreas, atribui-lhes uma espessura irrefutável. Sento-me no cinema com a minha solidão ao lado. A fatalidade da escuridão é esta: não esconde, antes exibe a solidão, e esta é pegajosa e espessa e dura e está colada à pele. E eu, eu estou sentada em cima da minha solidão, a asfixiá-la no escuro, às escondidas. Mas estou imóvel. No meu corpo só os meus fluidos se movem. Fazem movimentos circulares de mim para fora, saem de mim os meus fluidos. Ninguém quer estar dentro do meu corpo. Eu compreendo isso. Um homem não tem fluidos autónomos, é ele quem os expulsa. São governáveis como todas as coisas dos homens. Uma mulher que tem a libido de um homem é uma mulher perigosa: quando come a carne alheia consome-se a si própria em proporções idênticas. Às vezes uma mulher vem-se e chora. O corpo explode duas vezes. O corpo de uma mulher está sempre pronto a estalar e a rachar de uma vez e uma mulher às vezes vem-se e não aguenta e chora e não percebe porque chora, ela não queria chorar, queria rir e dizer palavrões. Às vezes uma mulher vem-se com tanta intensidade que no fim não fica nada. E então uma mulher está sentada com a sua solidão e os seus fluidos e o seu corpo impraticável e não está morta, mas está sentada no escuro com um corpo que expele como quem expulsa e lembra: estás sentada no escuro com a tua solidão irrespirável e quando saíres vai continuar escuro lá fora.



Texto da Menina Limão publicado em 22-1-2008.

Mallu Magalhães

Já olho isto com saudade. Com muita saudade. Saudades minhas, acima de tudo.





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25.3.10

Lisboa, Lisboa, Lisboa

Lisboa,
vamos lá resolver os nossos problemas. 


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Cheguei à conclusão que as flash mobs emocionam-me.

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22.3.10

Manhãs líquido

As minhas manhãs em Barcelona têm quase sempre uma luz difusa. Movo-me em ruas tortas onde os objectos são rosados e esfumados. Manhãs licor-melaço. Depois de ir transpirar, o que deteriora ainda mais a minha resistência à luz, vou ao mini-mercado que fica no meu caminho de casa. Àquela hora só há velhos a comprar. Costumam ser sempre os mesmos. Consigo focar as suas caras. Ali no meio há um fantasma, um senhor a quem não consigo olhar na cara. Claro que é para ele que quero olhar. De manhã, compra uma garrafa de whisky, nada mais. Não precisa de nada mais. Está à minha frente na fila para pagar. Sigo-o. Vou atrás dele na rua. Não tenho coragem de o olhar e baixo solenemente a cabeça. Vejo a garrafa entre a transparência do saco de plástico, ainda à luz da minha visão trôpega. Tenho uma vontade enorme de agarrá-lo pelo braço. Caminhar passos sem falar, sem sequer olhar. Entrar na sua casa, sentar todo o meu peso nos sofás de veludo verde-acastanhado. Eu queria sentir o cheiro a bafio, puxar de 2 copos baixos e beber com ele. De certeza que ali estaríamos iluminados pelas frinchas das persianas. No escuro da luz. Na luz exacta dos meus olhos. Seríamos os dois do mesmo líquido, até, por fim, tragar toda a nossa escuridão.
Manhãs licor-ácido.


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Desculpem

Ainda estou nesta família, é aí que habito com exclusão de todos os outros lugares. É na sua aridez, na sua terrível dureza, na sua maleficiência que estou mais profundamente segura de mim, no mais profundo da minha certeza essencial (...).

In O Amante de Marguerite Duras


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19.3.10

Put the blame on me, boys.




Quando ouvi isto pela primeira vez pensei que o refrão era "Put the blame on me, boys" e achei perfeito. Não é bem assim, mas é muito melhor.

When they had the earthquake in San Francisco
Back in nineteen-six
They said that ol' Mother Nature
Was up to her old tricks
That's the story that went around
But here's the real low-down
Put the blame on Mame, boys
Put the blame on Mame
One night she started to shimmy-shake
That brought on the Frisco quakes
So you can put the blame on Mame, boys
Put the blame on Mame


Fragmento do filme Gilda de 1946 de Charles Vidor


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Oh Joanaaa



Joana, estás a ler-me? Lembras-te da tipa cadavérica mais o amigo; que não tinham dinheiro para pagar o pequeno-almoço e foi mega confusão e resulta que catrapum: eram músicos da cena do indie? Estás a ver quem são? Pues, vienen cantar en mi ciudad. Hombre, este mundo es como un guisante!

Os Mi and L'au actuam no teatro aveirense no dia 24 às 22h.

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Souvenir

Disse-lhe que partia na manhã seguinte. A pulsação subiu para o olhar e os interlocutores ficaram pequenos. Perguntei-lhe se queria alguma coisa de lá. Sorriu de soslaio, meteu-me a mão na cara e movimentando a cabeça disse-me: Que vuelvas tu Ana, quiero que tu vuelvas.

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18.3.10

Sim. Eu sempre afirmei o amor em relação à ideia de retorno.
Volta-se, sim.
Mas nunca da mesma meneira.

10.3.10

Indirecta

Sabem, é que eu não tenho computador e a Joanna Newsom editou um novo álbum...e pronto, esta é a minha história.


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A loucura não está nela, está na cara deles



Faço-me entender?
Mal se abrem as portas para um inteiro desastre não me venham dizer quem é o personagem débil. Eu quero saber onde raio está a subtileza, onde raio está a verdade.

Fotograma de A Woman Under the Influence de John Cassavates, de 1974


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O que se passa quando não se passa nada

Não fui eu quem lhe pediu para se sentar. Porque se sentou? Remexeu os papéis que estavam pela mesa. Não se interessava por nada. Era um indolente, um insolente. Fixou-me o olhar e eu não me podia mover. Disse-lhe: "Estás a magoar-me; deixa-me ir". Respondeu-me: "Não te estou a tocar. Queres que te toque?". Calei-me.

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Neva em Barcelona, faz sol em Nova York

1º- incredibilidade


2º- negação


3º- êxtase completo

5.3.10

I will tell her that I don't want you anymore

A tua ex-namorada está a ligar-me e tu a enviar-me sms.


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Adenda do Anúncio

Fui demasiado precipitada no post anterior. Duas jovens raparigas são também muito bem-vindas. Muito bem-vindas!

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4.3.10

Anúncio


Rapariga, boa rapariga, procura dois jovens rapazes para aprender a fazer (dançar) isto, tal e qual:



 
 



Com eventual apresentação ao público em data e local a designar.
Quem quiser preparar casting: aqui.

Fotograma de Band à Part de Jean-Luc Godard,1964

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1.3.10

Mais ou menos assim

- Diz-me uma grande estupidez.
- Queres casar comigo?
- Ah... estás a falar a sério?

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28.2.10


Isto não parou de tocar toda a semana. Recomendo que se ouça a música Porquê? seguida da Odeio.
E para acordar uma casa inteira nada melhor que a Outro.

Na Porquê, temos isto, que é isto tudo:

Estou-me a vir
E tu, como é que te tens por dentro?
Porque não te vens também?


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Exactamente aqui

Estou exactamente aqui. Dás vinte passos médios para a esquerda; três grandes em frente e oito aos pulinhos para oeste, mas de olhos fechados.


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Onde habitam os fantasmas, não se devem pisar lençóis.

Fotograma de O Sacrifício de Andrei Tarkovsky, 1986

323 a.C.

 


Nunca quis que me livrasses do pensamento de um Alexandrino. Mas a verdade é essa. Não sou tão grande como os teus edifícios.


Fotograma de Juventude em Marcha de Pedro Costa, 2006

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26.2.10

Wish wisely

Alguém ouviu as minhas preces. E desta vez é que morreu mesmo.

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19.2.10

Tu assim e eu assim

         


                                                

Ganho eu?


Fotografia de Adele Reed
Fotografia de Jeff Luker

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18.2.10

Ver o fundo do forno



Preferiria ficar calada a dar-lhe nomes, mas em toda a ostentação do problema não consigo deixar de ousar mostrar a minha fraca apreciação política. É que entre a patetice (como quem atira barro à parede) e a manipulação já nem sequer dissimulada, há todo um país que não se despacha.
Quando alguém diz: "O chamado caso das escutas é meramente político", é triste. Porque um dia ensinaram-me o que era a Política e a Democracia, e não tinha nada que ver com isto. Por certo, a estória da Política (entenda-se aqui: a portuguesa) parece-me um conto infantil clássico, mas contado apenas até meio; ou melhor, deixado nos preparativos de acender uma lareira. Aí, exactamente.


Ilustração do conto Hansel & Gretel dos irmãos Grimm por Arthur Rackham

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15.2.10

Conversa ao telefone com o senhor meu Pai

- Então, e o que é que estás a fazer?
- A ver um filme!
- Olha Ana, e se te metesses a estudar? Isso sim, é que era!
- Pai, mas faz parte... este é o meu trabalho.
 (ouço-o resmungar algo indecifrável do outro lado)
- Ver um filme...aiii (e suspira)

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14.2.10

Só para ti Nana



Espero que estejas a ler isto e a chorar.
Tu és a loira e eu a morena.

Fotografias da série End Times de Jill Greenberg (ver toda a série aqui)

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Premios Goya 2010

Estive com muita atenção a ver a gala dos Goya. Por uma razão muito simples: porque sei que amanhã, em Espanha, não se falará de outra coisa na imprensa, na televisão, nas salas de aula e nos cafés.
Com muita pena minha, não perderia muito tempo com os nossos (portugueses) Globos de Ouro. Aqui reside a diferença dos nossos cinemas.

Ainda sobre os Goya, fiquei com enorme curiosidade em ver Celda 211 que ainda não tive oportunidade.
Não posso negar uma certa tristeza quanto às minhas esperanças quebradas no não premiado filme Los Abrazos Rotos de Pedro Almodóvar (com excepção na categoria de música original cujo prémio foi atribuído a Alberto Iglesias). Pelos vistos eu devo ser a única a achar que é um filme sublime. Desculpem-me a ousadia, mas é uma tal declaração de amor ao cinema, que me toca mais profundamente do que a que fez Tarantino em Inglourious Basterds neste mesmo ano. A Pénolope Cruz foi embora da cerimónia mais cedo e tudo.
Para consagrar a minha admiração, e bem sei que estou um pouco obcecada com o tema, mas, Los Abrazos Rotos imprime em película o meu último tema de eleição: os fulgores narrativos emergentes das relações dos realizadores com as suas actrizes. Vá, prometo mudar de tema muito em breve.


Para terminar: acho que o Amenábar tem cara de matemático ou físico.

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