29.4.10

Google Reader

Estou-me nas tintas para se no Google Reader o meu blog parece feio ou se vejam os cantos mal cortados.


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Uma mala que é um caixão. O que trazes mata-te assim tanto?






Um personagem faz-se a partir de uma ressurreição, dizia Kaurismäki. Não é que se suponha que é irreal. Afinal, morrer de uma vez por todas não tem que ser a opção. 

Fotogramas de O Homem Sem Passado de Aki Kaurismäki, 2002

27.4.10

She drives fast, long road. She drives fast, long road (réplica nº1)



Já tinha inspirado a loucura, mas agora está instalada! Quem não ficar com vontade de estender roupa é porque não entende nada da escuridão da ruas.


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26.4.10

A ausência de uma Pietà








Pintura The Entombment of Christ de Caravaggio, 1602-3
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23.4.10

Assim desespera(mos)




Fotograma de Cleo de 5 à 7 de Agnès Varda, 1962
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20.4.10

"You have exceeded highest level overdue" ou Estou bem tramada, caraças

Há Alices e Alices



Esta é simplesmente maravilhosa. Foi animada em 1988 pelo surrealista Jan Švankmajer
Nesta cena, temos portanto, lá no meio, o Johnny Depp com uma cabeça de coelho e um coelho que vira chapeleiro. O Burton lá inventava uma coisa destas?
A minha Alice é aos recortes, esboçada a carvão onde se mistura a pele humana. A minha Alice é fiel entre folhas de papel e tecidos. A minha Alice tem personalidade e se é para encher um quarto com lágrimas, enche-se um quarto com lágrimas.

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Holanda e os homens e as suas decisões



Holanda, em Os Passos em Volta de Herberto Helder



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19.4.10

O meu amigo gay mandou-me isto mas acho que não era para mim

Este vídeo que acompanha a música Maniac interpretada pela Pj Harvey, é feito com retalhos do filme Un chant d'amour de Jean Genet realizado em 1950 mas exibido muito mais tarde dado o seu teor sexual. Talvez não fosse para mim mas eu gostei e agora quero vê-lo. Toma!



Bem, o que ele sabia era que eu queria dizer isto:


I need a man
To bring me love
To make me sing
I said I need a man
To make me feel
Like I'm a queen
I said to take me to the god heights
And kiss the devil on the mouth


I need a man
To make me moan
To make me bad
I need a man
To drive me slow
To drive me mad
I said to take me to the god heights
And kiss the devil on the mouth
To leave me, oh no no no no

I need a man
His heart is stone
His mother's bad
I need a man
His heart is stone
The deepest black
His heart is stone
His mother's bad
His heart is sick
The deepest black

M
A
N
I
A
C

I
Need 





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Ecrã Pontemkin (réplica nº 1)



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Ecrã Pontemkin



A propósito da visita de Catarina II, imperatriz da Rússia, em 1787, aos seus países mais recentemente conquistados- Ucrânia e Crimea-, o príncipe Grigory Alexandrovich Pontemkin decidiu criar povoações falsas para impressionar a imperatriz. Conta a história que uma série de artificialidades espantaram os olhos da Imperatriz.
Isto para contar que a expressão “cidades Pontemkin” acarreta consigo a conotação de construções ilusórias, artificiais e portanto discordam da verdadeira realidade. Uma destas cidades conhecemos bem pela câmara de Peter Weir, no filme The Truman Show de 1998.
Isto ainda para contar que outro exemplo destas “cidades” foi o desplante do senhor Adolf Hitler que deu ordem directa para se iniciar o processo de embelezamento do campo de concentração de Terezín, pois receberiam a visita de um comité internacional da Cruz Vermelha. Os senhores da Cruz Vermelha estavam preocupaditos, vá, depois de terem ouvido rumores de um tal plano “solução final”, que aniquilaria a raça judia da superfície da terra.
Aconteceu que foi tão bem montado o cenário nazi que o relatório deste comité não descobriu nenhuma infracção aos direitos humanos. Sabe-se hoje que este campo de concentração, de seu nome  Theresienstadt ou Gueto Paraíso, tinha um dos maiores níveis de aniquilamento de judeus através  das famosas câmaras de gás, subnutrição e proliferação de doenças. Entrevistado por Claude Lanzmann, Maurice Rossel, um dos enviados deste comité, contou que os seus olhos eram os olhos do mundo e tinha a obrigação de ver mais além, contudo não havia o menor sinal da cruel realidade, pois tudo era um “ecrã perfeitamente elevado aos seus olhos”.
Tudo isto, ainda para dizer que o senhor W.G. Sebald escreveu um livro intitulado Austerlitz cujo protagonista, a dada altura, procura nos filmes nazis de propaganda (realizados exactamente aquando da visita do comité internacional) o rosto da sua mãe. Para ver as imagens com cuidado, passa o filme em slow motion o que produz uma distorção do som. O que antes eram vozes energéticas passaram a ser rugidos ameaçadores; iguais às feras enjauladas que ele reconhecia de uma visita ao jardim zoológico. O protagonista não encontra a sua mãe mas pressente o perigo daquelas imagens aparentemente banais.
Tudo isto para dizer que me faz pensar no filme Memory of Berlin de John Burgan de 1998.
Tudo isto para dizer que quero ler o livro, que não li. Pronto, é só isto.


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16.4.10

O Processo ou Vê-se mesmo que é sexta-feira.


Quando uma mulher se cansa não o faz de passo seguro. Tem que soltar os cabelos, tirar o verniz das unhas e adormecer por fim, com o cheiro da acetona no nariz.

Fotografia daqui.

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Worried About You



Lembro-me que nesse ano só chorei uma única vez. Porque tinha medo. Porque sentia que tudo estava a mudar. Porque ele não me atendia o telefone.


A Worried About You dos Rolling Stones tem um tom interminavelmente comovente. Sofre aí...

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15.4.10

Eugénio de Andrade; conhecia-nos bem


Do fundo do corpo
Não dormia, passava horas e horas à escuta, acabando por distinguir no emaranhado de sons os rumores mais ínfimos, a aranha a tecer a teia ou, ainda mais audível, a luz abrindo caminho a pulso entre a espessura dos reposteiros. O silêncio chegava tarde, perdido na rua o eco dos pássaros derradeiros. Só estão ganhavam relevo aquelas pancadas vindas do fundo do seu corpo. Sempre ali estiveram, mas só nessas alturas surgiam limpas de outros ruídos, cada uma delas com perfil de espada. Até quando iriam durar? Porque chegaria um momento, disso não tinha a menor dúvida, em que o deserto da noite e o silêncio do corpo formariam uma substância única, para sempre inseparável do ardor do orvalho, subindo matinal os últimos degraus.
(Vertentes do olhar, 1984)


Interminavelmente
Entre as quatro paredes da memória acodem ao pátio os fulvos relinchos das éguas- ó manhã, manhã interminavelmente no meu sangue.
Poucas, muito poucas, quase nenhumas palavras são necessárias para trazer esse aroma- os lábios incendeiam-se, era um rapaz que se despia, agonia breve.
Depois do sol era como se nascesse ali- não voltaremos a falar em deserto a propósito do corpo.
(Vertentes do olhar, 6.6.1985)


Com as primeiras chuvas
Abrir as mãos. Como ser o vento fora a maravilha. Acariciar-lhe a crina, a lentíssima garganta. Deixá-lo partir, jovem ainda. Com as primeiras chuvas
(Memória de outro rio, 1976-1977)


Ainda sobre a pureza
Não gostaria de insistir, mas a beleza dos jovens que se amam é melancólica. Eles não sabem ainda que o desejo de morte é o mais perverso, que só uma coisa os tornaria puros: roubar o fogo e incendiar a cidade.
(Vertentes do olhar, 25.11.1985)



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13.4.10

Ela está no meio de nós





















Fotogramas de A Divina Comédia de Manoel de Olveira, 1991


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12.4.10

Eu mostrei-me



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10.4.10

I'm here. Where are you?



Como todos sabemos às segundas-feiras a malta lá da minha terra vai ao cinema no teatro aveirense. Yheay! Acontece que o filme é o Where the wild things are. Filme pelo qual já estrebuchei aqui no blog pela minha pouca paciência. Não obstante, fui procurar algo que desse uma abédia ao Spike, esse tipo! E encontrei algo. Não encontrei, encontrei... mas encontrei algo. E vai daí, chama-se I'm here e tem um curioso site que nos faz entrar numa sala de cinema (experiência interessante para quem está a estudar as novas salas de cinema, tipo eu) onde, como numa sala normal, teremos que esperar que o público componha a sala para iniciar a sessão. Por isso, o que estes senhores fizeram foi dizer-nos para chamarmos amigos no facebook .Yheay! (segundo yheay!...bora fazer amigos noutra comunidade virtual...tudo muito interessante). Caso sejamos mais da onda mostra-me-lá-isto-rápido, também podemos ver o filme sem ter a sala cheia. 
Acima está o cartaz do filme, patrocinado pela Vodka Absolut, pois claro.
Logo no primeiro plano, cheirou-me a Miranda July. E não é que?



Bingo! Aqui está ela numa fotografia das filmagens do I'm here.
Não me perguntem o que estava lá a fazer, mas que eu tenho olfacto, lá isso tenho.
Para além disso, a banda sonora tem a participação da até agora desconhecida Aska Matsumiya que é japonesa e gira e pronto, gostei da música.
Tudo isto para dizer: malta da minha amada terra, ide ver o cinema do Cineclube de Aveiro.

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6.4.10











Fomos seres de carne e osso. Amantes (...), diz Agnès.
Amantes, amantes, amantes, amantes, amantes, amantes, amantes, amantes, amantes.



Fotogramas retirados do filme Les Plages d'Agnès, 2008 de Agnès Varda
Quadro The Lovers de René Magritte, 1928


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4.4.10

Era aquele o copo tingido de vermelho. 
Aquele que prometia lábios roxos, misturados com uma língua trincada

Era aquele o copo envenenadoAquele que bebiam aquelas bocas: as ensanguentadas.


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31.3.10

Ahaha, não fosse completamente ao contrário e eu ainda não me ria mais


O saldo do dia dela é espontâneo e honesto. Tinha medo de me parafrasear. Saiu isto:

nos últimos tempos ando a comer mais polla do que pollo. 

(a Joaquina vai deixar de dizer coisas destas, promete)

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Goodnight Irene, até ao próximo mês de Agosto


Ler isto. Mas não concebo outra leitura que não passe por duvidar de cada palavra. De cada uma. Que pica do caraças, pá! Estou a falar a sério.

Fotograma do filme Goodnight Irene de Paolo Marinou-Blanco, 2008


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30.3.10

Innocent when you dream (réplica nº2 ou a Menina Limão)



(ahah, encontrei isto no meio da tralha)

O sonho é muito antigo.
Não era fácil contá-lo, sabes? Acima de tudo porque deixava-me quase nua. E naquela altura eu ainda me importava com a minha nudez aos teus olhos.
Não sei porque razões, mas eu ia mudar de casa. Sempre me preocuparam as casas novas, porque achava que nenhuma casa teria o pé alto que desejava. Mas neste sonho era diferente. Amava cada canto da casa que me impuseram. Era forrada de tábua de madeiras cujas margens eram arredondadas, tinha um pátio com um jardim mal nascido e ainda se cheirava o velho limoeiro. Eu estava verdadeiramente completa naquele sítio. Deitava-me nas pedras frias do pátio e a minha pele ficava marcada com milhares de impressões arenosas. Não foi contigo que sonhei. Ainda não tinhas cara. Mas contaram-me que quem antes ali vivia eras tu. E eu corria descalça à procura das evidências. Encontrei gavetas com diferentes tipos de papel e muitos, muitos tubos de tinta.

Foi só isto.


Ah, e as minhas prendas

A primeira é um bocadinho de botânica ténue (que eu não gosto de ser confundida com outras), para te dizer o quanto te acho bonita. (Depois de um nosso primeiro encontro ficaste admirada quando te disse que não estava preparada para a tua cara. Não estava.)



A segunda é um dos meus textos favoritos de sempre, para te dizer o quanto és um monstro feio:


O corpo dela era todo errado.

Uma mulher senta-se no escuro de uma sala de cinema e pensa: não estou morta. O escuro de uma sala de cinema adensa as massas corpóreas, atribui-lhes uma espessura irrefutável. Sento-me no cinema com a minha solidão ao lado. A fatalidade da escuridão é esta: não esconde, antes exibe a solidão, e esta é pegajosa e espessa e dura e está colada à pele. E eu, eu estou sentada em cima da minha solidão, a asfixiá-la no escuro, às escondidas. Mas estou imóvel. No meu corpo só os meus fluidos se movem. Fazem movimentos circulares de mim para fora, saem de mim os meus fluidos. Ninguém quer estar dentro do meu corpo. Eu compreendo isso. Um homem não tem fluidos autónomos, é ele quem os expulsa. São governáveis como todas as coisas dos homens. Uma mulher que tem a libido de um homem é uma mulher perigosa: quando come a carne alheia consome-se a si própria em proporções idênticas. Às vezes uma mulher vem-se e chora. O corpo explode duas vezes. O corpo de uma mulher está sempre pronto a estalar e a rachar de uma vez e uma mulher às vezes vem-se e não aguenta e chora e não percebe porque chora, ela não queria chorar, queria rir e dizer palavrões. Às vezes uma mulher vem-se com tanta intensidade que no fim não fica nada. E então uma mulher está sentada com a sua solidão e os seus fluidos e o seu corpo impraticável e não está morta, mas está sentada no escuro com um corpo que expele como quem expulsa e lembra: estás sentada no escuro com a tua solidão irrespirável e quando saíres vai continuar escuro lá fora.



Texto da Menina Limão publicado em 22-1-2008.

Mallu Magalhães

Já olho isto com saudade. Com muita saudade. Saudades minhas, acima de tudo.





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25.3.10

Lisboa, Lisboa, Lisboa

Lisboa,
vamos lá resolver os nossos problemas. 


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Cheguei à conclusão que as flash mobs emocionam-me.

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22.3.10

Manhãs líquido

As minhas manhãs em Barcelona têm quase sempre uma luz difusa. Movo-me em ruas tortas onde os objectos são rosados e esfumados. Manhãs licor-melaço. Depois de ir transpirar, o que deteriora ainda mais a minha resistência à luz, vou ao mini-mercado que fica no meu caminho de casa. Àquela hora só há velhos a comprar. Costumam ser sempre os mesmos. Consigo focar as suas caras. Ali no meio há um fantasma, um senhor a quem não consigo olhar na cara. Claro que é para ele que quero olhar. De manhã, compra uma garrafa de whisky, nada mais. Não precisa de nada mais. Está à minha frente na fila para pagar. Sigo-o. Vou atrás dele na rua. Não tenho coragem de o olhar e baixo solenemente a cabeça. Vejo a garrafa entre a transparência do saco de plástico, ainda à luz da minha visão trôpega. Tenho uma vontade enorme de agarrá-lo pelo braço. Caminhar passos sem falar, sem sequer olhar. Entrar na sua casa, sentar todo o meu peso nos sofás de veludo verde-acastanhado. Eu queria sentir o cheiro a bafio, puxar de 2 copos baixos e beber com ele. De certeza que ali estaríamos iluminados pelas frinchas das persianas. No escuro da luz. Na luz exacta dos meus olhos. Seríamos os dois do mesmo líquido, até, por fim, tragar toda a nossa escuridão.
Manhãs licor-ácido.


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Desculpem

Ainda estou nesta família, é aí que habito com exclusão de todos os outros lugares. É na sua aridez, na sua terrível dureza, na sua maleficiência que estou mais profundamente segura de mim, no mais profundo da minha certeza essencial (...).

In O Amante de Marguerite Duras


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19.3.10

Put the blame on me, boys.




Quando ouvi isto pela primeira vez pensei que o refrão era "Put the blame on me, boys" e achei perfeito. Não é bem assim, mas é muito melhor.

When they had the earthquake in San Francisco
Back in nineteen-six
They said that ol' Mother Nature
Was up to her old tricks
That's the story that went around
But here's the real low-down
Put the blame on Mame, boys
Put the blame on Mame
One night she started to shimmy-shake
That brought on the Frisco quakes
So you can put the blame on Mame, boys
Put the blame on Mame


Fragmento do filme Gilda de 1946 de Charles Vidor


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Oh Joanaaa



Joana, estás a ler-me? Lembras-te da tipa cadavérica mais o amigo; que não tinham dinheiro para pagar o pequeno-almoço e foi mega confusão e resulta que catrapum: eram músicos da cena do indie? Estás a ver quem são? Pues, vienen cantar en mi ciudad. Hombre, este mundo es como un guisante!

Os Mi and L'au actuam no teatro aveirense no dia 24 às 22h.

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