14.5.10






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12.5.10

Ter um plano






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10.5.10

Le fil sous la neige



Eu. Pausa. Ainda não. Pausa. (respiro)
Interrompi uma conversa e decidi sair de casa. Fui, fui. Andei até me perder; perdida. Perdida.
Salvaram-me as luzes delicadamente posicionadas de 8 em 8 centímetros exactos. Era um circo antigo. Entrei pela penumbra e vi tudo, vi o mundo por fios de aço com as suas pessoas e os seus jogos. Vi as 7 personagens não-falantes mais complexas que alguma vez supus que existissem. Era uma farsa, não era possível. Mas estava ali no meio, aos meus olhos. O equilíbrio. Era o jogo. Era a vida. Nunca. Pausa. Eu. Pausa. Não sei explicar. A beleza. O peso, a corda, o equilíbrio. O equilíbrio, aqui está. A Beleza. E depois havia uma parte em que ela se atirava contra a corda consecutivamente. Não conto o resto. Eu. Pausa. Ainda não(respiro). Pausa





O vídeo é demasiado genérico do que foi Le fil sous la neige. Mas ainda assim, serve por agora.
Mais coisas aqui. Espero que gostem de Catalão




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9.5.10

Esperar três segundos

Aqui a Annie gostou muito disto, que vinha disto. E lembrei-me que costumava fazer um truque parecido. A cena é que era sempre muito complicado sincronizar tudo. E eu chateava-me. Lutei tanto para ouvir os dois juntos que acho que tenho uma fórmula:

Primeiro clicar aqui e passados 3 segundos clicar aqui.

A música é Green Grass do Tom Waits. Versão original do Tom (para os amigos) e cover da Cibelle. Partem-me toda, estes dois.


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8.5.10

Hipóteses para tese académica




Uma coisa é ver um filme na cama, outra é mudar os lençóis.

Fotogramas de Último Tango em Paris de Bernardo Bertolucci, 1972.


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Resulta


Quando era miúda usava uma almofada apenas para me tapar do frio. Hoje continuo a fazer o mesmo. E resulta.

A fotografia é de Hellen Van Meene


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Entendem?





Fotograma de Les quatre cents coups de François Truffaut, 1959



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A culpa era deles


Era culpa daqueles vizinhos que se tinham mudado há poucas semanas. Falavam que se fartavam, gritavam, costuravam conversas enquanto comiam palavras que não entendia. Chineses, japoneses, sei lá. Acordavam-me dia sim, dia sim. Começou a ser um hábito. Foi isso... sim, habituei-me aos ecos do edifício. As vozes acorriam e já não estranhava. Aliás, acho que eram felizes assim e eu alegrava-me. E depois havia uma criança,  uma criança com os seus monólogos. Imaginava-a com uma cor púrpura, a puxar as mangas das camisolas sujas pelos braços abaixo, pequenos. Lembrava-me o quanto queria vê-la. Vê-la de verdade, agarrá-la, senti-la contra o meu peito, sentir-lhe o cheiro daquela cor. Construía a sua cor na minha cor. O púrpura da minha cabeça  alastrava-se na minha pele pelas suspeitas sobre aquela gente. Sim, a culpa era deles que se tinham mudado há poucas semanas e sim, eu queria que aqueles olhos rasgados de púrpura, pousassem sobre os meus olhos demasiado grandes, azuis. 
A culpa era deles, deles. Entendem? Vieram as chuvas e lavaram-se os ecos do prédio. Ouvi discussões, gritos, choros. Segunda, sexta-feira. Das primeiras vezes saía de casa a correr e metia-me ao alto com a porta. Passados uns dias comecei a sentar-me nas escadas ao lado da porta. Agachava-me e abraçava os joelhos. Não fazia mais nada. Choros, choros, choros. Gritos, golpes, coisas a partir. Pratos, garfos e os braços púrpura a pedir comida. Eu fora.
Choveu toda a semana sem parar. Choros. 5 da manhã. A mulher abriu a porta. Tinha uma tesoura na mão. Havia manchas de sangue na roupa. Olhou para mim desesperada. Não estava à espera de ver ninguém, claro, fechou a porta de medo. Ouvi-a lá dentro a recapitular desesperos. Já estava  de pé e as minhas lágrimas azuis caiam ao ritmo que batia à porta, incansavelmente. Ela abriu e gritou-me coisas que não entendi. Acho que não me julgava por estar ali. Apertou-me o pulso e olhou-me fixamente. Mantive-me firme e intacta. Foi ao fundo do corredor e pegou na criança. Deu-ma em braços. Atirou-me fora do apartamento e fechou a porta. Era eu e a cor púrpura. Olhos púrpura nos meus olhos grandes, azuis.


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7.5.10

Bresson e o Cinematógrafo, Costa e a mini-DV





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OS 400 GOLPES


OS 400 DISPAROS




Fotograma de Les quatre cents coups de François Truffaut, 1959
Fotograma de Robocop III de Fred Dekker, 1993

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6.5.10

Easy

Uma vez descobri a password de uma pessoa. Era 'morte'.

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4.5.10

All Tomorrow's Parties


Suspiro. O senhor Vincent Moon, senhor exis-tris-pim-master da LA BLOGOTHEQUE, que nós tanto adoramos, está a menos de 152 metros de mim (nunca tenho bem noção das distâncias, desculpem). Exactamente agora. O senhor está do outro lado da praça onde vivo a derramar a sua sabedoria com alunos de uma escola de audiovisuais. Pois é. E eu aqui. Dá-me comichões, isto. Comichões!
Vai daí lembrei-me do IndieLisboa,  que para além do documentário Adelia, I Want to Love, exibiu o filme All Tomorrow's Parties no qual Vincent Moon dá uma ou duas mãozinhas. E vai daí, lembrei-me da extensão do IndieLisboa a Aveiro. Uma iniciativa do Teatro Aveirense em colaboração com o Cineclube de Aveiro que projectará o filme no dia 27 de Maio às 22h. Thank God we exist.

Quem quiser um pouquinho de adrenalina musical aqui está o filme. Uma colagem exis-tris-pim-tesuda dos músicos que nos partem ao meio e não nos devolvem inteiros no final. Tal e qual como se quer, portanto. Mas aviso-vos já para não saírem da sala com vontade de terem estado dentro do filme. Consta que os bilhetes para o festival ATP são carotes, vá. Eu tenho sempre o SOM DA PRIMAVERA e isso alegra-me. Pás-pum! 
Acho que vou dar um passeio pela minha praça. Não sei... está a chover,  é o dia perfeito. Volto a suspirar.





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8 páginas depois do relato "Salomé y el falso profeta"

El Maestro

Por la tarde, cuando José de Arimatea descendió del monte Calvario, donde Jesús habia muerto, vio que un joven lloraba, sentado sobre una piedra blanca. José se acercó a él y le dijo:
- Entiendo lo grande que debe ser tu pena, pues en verdad ese Hombre era un hombre justo.
Pero el joven le replicó:
- Oh, no lloro por eso. Lloro porque yo también he forjado milagros: yo también he otorgado la vista al ciego, he curado al paralítico, he resucitado a los muertos. Yo también he provocado que la higuera estéril se marchite y he trocado el agua en vino y, aun así, no me han crucificado.

Oscar Wilde

em Relatos do livro El arte de conversar de Oscar Wilde, tradução de Roberto Frías, edições Atalanta



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2.5.10

Super 8 ou A Puta de Luxo


Sabem quanto se paga, hoje em dia, por um minuto com uma super 8? Um balúrdio. Tem que ser algo maravilhosamente recompensador. É a puta de luxo e a mais madura das câmaras de filmar contemporâneas.
Curiosamente Pedro Almodóvar deu tudo por esta menina para fazer a sua primeira metragem. A juventude tem os seus caprichos. Amou-a e cuidou-a. Deu-lhe um nome: Salomé (nada que ver contigo, meu amor). Mas sim, tratava-se de vender o corpo em troca de um sacrifício. Baseada na obra Salomé de Oscar Wilde temos acessos a rasgos do que virá a ser todo o trabalho de Almodóvar. Lembro-me que quando vi a curta-metragem pela primeira vez (suponho que há dois anos atrás), existia uma aura criminosa inexplicável que me torturou pecaminosamente. É, isto de nos vendermos ao luxo sai caro. Caro como a película para a Super 8.

O filme Salomé é de 1978. E aqui está:





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Tudo é mais verdade, Mãe, quando passas as tuas mãos nos meus cabelos. Tudo é mais verdade, minha Mãe.

Quadro de Egon Schiele, Mother and Daughter, 1913



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1.5.10

Your Kid Sister




Na realidade não sei porque demorei tanto tempo a admitir que mexia comigo. Precisei de ver para crer. Your Kid Sister é uma menina-coelho que canta com várias vozes. Julgo até que ela não sabe bem o poder que tem, mas isso ainda lhe dá mais graça. A sua inexperiência a entrar no palco, o vestido mal apertado, o acordeão a cair. E depois...é vê-la crescer. Canta em inglês e em francês como quem pede licença para descalçar-se. Fica então despida e já estamos todos nus e sôfregos por nos tocarmos. Foi hoje uma hora de mãos suadas. Pedi-lhe poison uma segunda vez e ela deu-me. Ah... sabia bem o que todos precisávamos. Afinal, there's nothing to regret.


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Da urgência do teatro: Blackbird



Ray- Eu estou a viver a minha vida.
          Uma vida nova pela qual lutei porque perdi

Una- Alguma vez pensaste em mim?

Ray- Tenho todo o direito de afastar tudo da minha cabeça o mais que puder.

Una- No que se estava a passar comigo?

Ray- Tu achas que eu deveria reviver o que se passou todos os dias?
          Isto é a minha vida.
          Tu não podes

(...)


Una- Mas magoaste

Ele estende o braço e faz-lhe uma festa.    

Ray- Tu estavas sozinha.
         Antes de me conheceres.
         Quando me conheceste.
         Tu estavas só.
         Eras uma criança solitária.
         Os teus pais deixavam-te por tua conta.
         Tu nunca o disseste mas quando eu te tinha nos meus braços eu conseguia sentir.
         Agora percebo.
         Eu pensava que eras forte.
         Mas não és.
         Eu também não sou.

Eles beijam-se.


Ray- Eu pensei em ti.
         Ainda penso em ti.

Una- Pensas em quê?
         Pensas em mim naquela altura?

Ray- Sim.
         Penso.
         É tudo o que tenho.

Una- Naquele quarto?

Ray- Sim.
         A tocar-te.
         A abraçar-te.

Una- A foder-me?

Ray- Sim.
         A foder-te.

Una- Masturbas-te?
          Vens-te?

Ray- Sim.

Eles beijam-se.
Vai ficando mais intenso.
Começam a despir-se um ao outro.
Deitam-se no chão.
Ray afasta-se.

Ray- Não. Eu não posso.
         Eu não posso.

excerto de Blackbird de David Harrower, tradução de Tiago Guedes.
a fotografia é da mesma peça encenada por David R. Gammons.

29.4.10

Google Reader

Estou-me nas tintas para se no Google Reader o meu blog parece feio ou se vejam os cantos mal cortados.


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Uma mala que é um caixão. O que trazes mata-te assim tanto?






Um personagem faz-se a partir de uma ressurreição, dizia Kaurismäki. Não é que se suponha que é irreal. Afinal, morrer de uma vez por todas não tem que ser a opção. 

Fotogramas de O Homem Sem Passado de Aki Kaurismäki, 2002

27.4.10

She drives fast, long road. She drives fast, long road (réplica nº1)



Já tinha inspirado a loucura, mas agora está instalada! Quem não ficar com vontade de estender roupa é porque não entende nada da escuridão da ruas.


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26.4.10

A ausência de uma Pietà








Pintura The Entombment of Christ de Caravaggio, 1602-3
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23.4.10

Assim desespera(mos)




Fotograma de Cleo de 5 à 7 de Agnès Varda, 1962
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20.4.10

"You have exceeded highest level overdue" ou Estou bem tramada, caraças

Há Alices e Alices



Esta é simplesmente maravilhosa. Foi animada em 1988 pelo surrealista Jan Švankmajer
Nesta cena, temos portanto, lá no meio, o Johnny Depp com uma cabeça de coelho e um coelho que vira chapeleiro. O Burton lá inventava uma coisa destas?
A minha Alice é aos recortes, esboçada a carvão onde se mistura a pele humana. A minha Alice é fiel entre folhas de papel e tecidos. A minha Alice tem personalidade e se é para encher um quarto com lágrimas, enche-se um quarto com lágrimas.

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Holanda e os homens e as suas decisões



Holanda, em Os Passos em Volta de Herberto Helder



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19.4.10

O meu amigo gay mandou-me isto mas acho que não era para mim

Este vídeo que acompanha a música Maniac interpretada pela Pj Harvey, é feito com retalhos do filme Un chant d'amour de Jean Genet realizado em 1950 mas exibido muito mais tarde dado o seu teor sexual. Talvez não fosse para mim mas eu gostei e agora quero vê-lo. Toma!



Bem, o que ele sabia era que eu queria dizer isto:


I need a man
To bring me love
To make me sing
I said I need a man
To make me feel
Like I'm a queen
I said to take me to the god heights
And kiss the devil on the mouth


I need a man
To make me moan
To make me bad
I need a man
To drive me slow
To drive me mad
I said to take me to the god heights
And kiss the devil on the mouth
To leave me, oh no no no no

I need a man
His heart is stone
His mother's bad
I need a man
His heart is stone
The deepest black
His heart is stone
His mother's bad
His heart is sick
The deepest black

M
A
N
I
A
C

I
Need 





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Ecrã Pontemkin (réplica nº 1)



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Ecrã Pontemkin



A propósito da visita de Catarina II, imperatriz da Rússia, em 1787, aos seus países mais recentemente conquistados- Ucrânia e Crimea-, o príncipe Grigory Alexandrovich Pontemkin decidiu criar povoações falsas para impressionar a imperatriz. Conta a história que uma série de artificialidades espantaram os olhos da Imperatriz.
Isto para contar que a expressão “cidades Pontemkin” acarreta consigo a conotação de construções ilusórias, artificiais e portanto discordam da verdadeira realidade. Uma destas cidades conhecemos bem pela câmara de Peter Weir, no filme The Truman Show de 1998.
Isto ainda para contar que outro exemplo destas “cidades” foi o desplante do senhor Adolf Hitler que deu ordem directa para se iniciar o processo de embelezamento do campo de concentração de Terezín, pois receberiam a visita de um comité internacional da Cruz Vermelha. Os senhores da Cruz Vermelha estavam preocupaditos, vá, depois de terem ouvido rumores de um tal plano “solução final”, que aniquilaria a raça judia da superfície da terra.
Aconteceu que foi tão bem montado o cenário nazi que o relatório deste comité não descobriu nenhuma infracção aos direitos humanos. Sabe-se hoje que este campo de concentração, de seu nome  Theresienstadt ou Gueto Paraíso, tinha um dos maiores níveis de aniquilamento de judeus através  das famosas câmaras de gás, subnutrição e proliferação de doenças. Entrevistado por Claude Lanzmann, Maurice Rossel, um dos enviados deste comité, contou que os seus olhos eram os olhos do mundo e tinha a obrigação de ver mais além, contudo não havia o menor sinal da cruel realidade, pois tudo era um “ecrã perfeitamente elevado aos seus olhos”.
Tudo isto, ainda para dizer que o senhor W.G. Sebald escreveu um livro intitulado Austerlitz cujo protagonista, a dada altura, procura nos filmes nazis de propaganda (realizados exactamente aquando da visita do comité internacional) o rosto da sua mãe. Para ver as imagens com cuidado, passa o filme em slow motion o que produz uma distorção do som. O que antes eram vozes energéticas passaram a ser rugidos ameaçadores; iguais às feras enjauladas que ele reconhecia de uma visita ao jardim zoológico. O protagonista não encontra a sua mãe mas pressente o perigo daquelas imagens aparentemente banais.
Tudo isto para dizer que me faz pensar no filme Memory of Berlin de John Burgan de 1998.
Tudo isto para dizer que quero ler o livro, que não li. Pronto, é só isto.


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