28.5.10

The XX ou A importância de estar sentado





Eu temia-os bastante. Sabia que não ia gostar, que ia sair dali insatisfeita. Mas não sabia porquê. E agora já sei. E a pena é que os meus medos confirmaram-se. Não posso dizer que foi arrepiante, que me completaram. Não o fizeram por um simples motivo: porque eu não estava sentada. Pode parecer-vos ridículo, mas...sabem? Parece-me que há coisas que pela sua natureza já são tão agoniantes, que a melhor forma de lidar com elas é reprimirmo-nos ainda mais para que façam sentido. Estar sentado seria a repressão perfeita. É... a importância da imobilidade. - The XX, tragam cadeiras e que todos se sentem, por favor.

Já a querida Florence and The Machine, isso é para estar na primeira fila, gritar e sucumbir. É já amanhã o concerto. E The XX e Florence? Juntos? Como os veríamos? Fácil! Maravilhosamente, assim: 




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27.5.10

Livro dos pensamentos



Este, o Livro dos Pensamentos de João César Monteiro, guarda coisas impressionantes e chega-nos sob a forma de: "God Shave the Queen".
Noutros momentos, um pensamento que eu guardo do João César Monteiro é este:

"O espectáculo da paixão é mais deprimente que o da mendicidade".

God save João César.

Fotograma de A Comédia de Deus, de João César Monteiro, 1995

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Le fil sous la neige (réplica nº1)



Eu falei-vos do circo, das luzes, de estar perdida. Não era mentira. 8 centímetros de distância e eu entrei. Agora, aqui, o circo revelado. Continuo a lembrar-me deste dia eterno.

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26.5.10

Duas falas interrompidas


- Sabes, Bianca... é que era Fevereiro e as janelas mantinham-se fechadas por causa do teu estado. Eu colocava toalhas geladas na tua fronte e esperava pacientemente que adormecesses. Regulava a corrente de soro e esterilizava as seringas. Só depois é que me deitava nas duas cadeiras de plástico que juntava sem arrastar para não te acordar. Não dormia, claro. Ficava concentrado nas tuas expirações. Contava-as e analisava-as de forma a poder construir um padrão consistente de respirações. Assim sabia quando a dor era torácica ou abdominal; quando sentias calafrios ou expulsões da tensão muscular. Sabia qualificar a tua dor. Não tem graça? Eu sabia contar cada uma das tuas agonias. E eu não sentia nada.



Bianca tem uns amigos novos. Vê-os todos os dias, a ela e a ele, às 15:30 na paragem de metro. Ela, a mulher, ronda os 48 anos, é gorda e pequena. Os cabelos amarelados da lixívia confundem-se com a camisola de brilhantes e as calças de ganga estão demasiado justas para a anca voluptuosa. O soutien aperta forçosamente as dobras do corpo em 7 centímetros de largura das costas. Ele, o homem, terá os seus 35. É anafado, veste-se com fatos-de-treino e tem o nariz acabadinho de esmurrar. 
Agora; os novos amigos de Bianca amam-se. Todos os dias apresentam-se apaixonados. Ela, a mulher, caminha em cima dele, agarrada à cintura dele com a mão direita enquanto que a mão esquerda toca-lhe o rabo. Nisto faz questão de olhar para toda a gente enquanto passa. Os dois juntos afirmam-se, criam um espaço obsceno, e depois de se passearem sentam-se sempre perto de Bianca. Ela, a mulher, toca o sexo dele à frente de Bianca e ele, o homem, senta a mulher ao seu colo impulsionando-lhe o baixo-ventre contra o meio das pernas. Amam-se no metro. Tocam-se, excitam-se, abrem as bocas rasgadas e gemem. Olham para Bianca a meio do processo. São feios, medíocres e fazem amor no metro. São os novos amigos de Bianca.


- Sabes, Bianca... é que era Outubro e eu ainda te queria para mim. Deitar-me a um metro de ti e respirar nas tuas costas. Aliviar-te dos soluços e vestir-te um fato de treino que te deixasse confortável.


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25.5.10

Deixa lá filho, fica para a próxima






Fotograma de La Maman et la Putain de Jean Eustache, 1973


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24.5.10

Falling in love with pretty girls it's so fucking easy and boring



Veio daqui.

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Para a S. Salomé



Salomé, parece que estou a imaginar-te a vocalizar isto. Ahaha
E o vídeo é porque isto seria de certeza o que ouvíamos nos anos 80 semi-nuas e com palmeiras de cabelo bem apanhadas na cabeça.



não sei onde encontrei a imagem, ninguém sabe, ninguém quer saber
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Un coeur simple

 A mim parece-me tão complicado:

Aos vinte e cinco anos, davam-lhe quarenta; a partir dos cinquenta, parecia que a idade não passava mais por ela; e, sempre silenciosa, de porte rectilíneo e gestos comedidos, parecia uma mulher de madeira, a funcionar de forma automática.


Um coração simples, de Gustave Flaubert


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Summer's on





Tu que apanhas a morte com o peito. Sim, é contigo que quero falar. Anda cá contar-me coisas que eu não tenho a tua idade e não quero crescer como tu.


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Winter's off





Diz-se que acabou. Pena eu não saber bem em que perna estamos. 
A Yashica é minha e ninguém ma tira. Quer dizer, depende se tiver pernas ocupadas.


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20.5.10

Deixo-vos isto...




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Oh paz, oh paz.
Que vens descalça, areia no corpo e sabor a sal.

Não tenho escrito nestes últimos dias e prevejo uns dias mais de silêncio. É culpa do mar. As minhas 12 pessoas que me visitam aqui irão compreender. Todos sabemos que, afinal, até estou mais perto.

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15.5.10

À tina e ao txutxu

Estou sem dinheiro para responder.
E como sei que são meus leitores silenciosos, respondo assim:



Acho que está tudo aqui. O Bruce que se encarregue do resto.

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14.5.10




Não sei quando é que me vi entrar na solidão. Sei que é sexta-feira à noite e sou só eu e o Heitor Villa-Lobos.  Ah, orgulhosamente só.


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Loco-designnnnnnn

Nos meus tempos de estudante universitária. Não do primeiro curso, do segundo, esse, vocês sabem...Pronto, nós estávamos ali ao lado dos designers. E gostávamos muito deles. E continuamos a gostar, claro. Eu gosto de todos se bem que tenho uma queda maior para os músicos ou para os arquitectos, ou... pensando bem, tenho queda para muitas outras coisas...enfim. Bem, nesses tempos tínhamos uma private joke sobre eles. Nas alturas de maior alucinação tínhamos um estado que correspondia a um efervescente leque de sintomas desvairados. Dizíamos:
-Estou louco.
-Louco? Loco-design?
-Sim, estou loco, sou de designnnnnnnn!

E não é que há público para isto? Será que alguém nos ouvia?


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12.5.10

Ter um plano






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10.5.10

Le fil sous la neige



Eu. Pausa. Ainda não. Pausa. (respiro)
Interrompi uma conversa e decidi sair de casa. Fui, fui. Andei até me perder; perdida. Perdida.
Salvaram-me as luzes delicadamente posicionadas de 8 em 8 centímetros exactos. Era um circo antigo. Entrei pela penumbra e vi tudo, vi o mundo por fios de aço com as suas pessoas e os seus jogos. Vi as 7 personagens não-falantes mais complexas que alguma vez supus que existissem. Era uma farsa, não era possível. Mas estava ali no meio, aos meus olhos. O equilíbrio. Era o jogo. Era a vida. Nunca. Pausa. Eu. Pausa. Não sei explicar. A beleza. O peso, a corda, o equilíbrio. O equilíbrio, aqui está. A Beleza. E depois havia uma parte em que ela se atirava contra a corda consecutivamente. Não conto o resto. Eu. Pausa. Ainda não(respiro). Pausa





O vídeo é demasiado genérico do que foi Le fil sous la neige. Mas ainda assim, serve por agora.
Mais coisas aqui. Espero que gostem de Catalão




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9.5.10

Esperar três segundos

Aqui a Annie gostou muito disto, que vinha disto. E lembrei-me que costumava fazer um truque parecido. A cena é que era sempre muito complicado sincronizar tudo. E eu chateava-me. Lutei tanto para ouvir os dois juntos que acho que tenho uma fórmula:

Primeiro clicar aqui e passados 3 segundos clicar aqui.

A música é Green Grass do Tom Waits. Versão original do Tom (para os amigos) e cover da Cibelle. Partem-me toda, estes dois.


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8.5.10

Hipóteses para tese académica




Uma coisa é ver um filme na cama, outra é mudar os lençóis.

Fotogramas de Último Tango em Paris de Bernardo Bertolucci, 1972.


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Resulta


Quando era miúda usava uma almofada apenas para me tapar do frio. Hoje continuo a fazer o mesmo. E resulta.

A fotografia é de Hellen Van Meene


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Entendem?





Fotograma de Les quatre cents coups de François Truffaut, 1959



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A culpa era deles


Era culpa daqueles vizinhos que se tinham mudado há poucas semanas. Falavam que se fartavam, gritavam, costuravam conversas enquanto comiam palavras que não entendia. Chineses, japoneses, sei lá. Acordavam-me dia sim, dia sim. Começou a ser um hábito. Foi isso... sim, habituei-me aos ecos do edifício. As vozes acorriam e já não estranhava. Aliás, acho que eram felizes assim e eu alegrava-me. E depois havia uma criança,  uma criança com os seus monólogos. Imaginava-a com uma cor púrpura, a puxar as mangas das camisolas sujas pelos braços abaixo, pequenos. Lembrava-me o quanto queria vê-la. Vê-la de verdade, agarrá-la, senti-la contra o meu peito, sentir-lhe o cheiro daquela cor. Construía a sua cor na minha cor. O púrpura da minha cabeça  alastrava-se na minha pele pelas suspeitas sobre aquela gente. Sim, a culpa era deles que se tinham mudado há poucas semanas e sim, eu queria que aqueles olhos rasgados de púrpura, pousassem sobre os meus olhos demasiado grandes, azuis. 
A culpa era deles, deles. Entendem? Vieram as chuvas e lavaram-se os ecos do prédio. Ouvi discussões, gritos, choros. Segunda, sexta-feira. Das primeiras vezes saía de casa a correr e metia-me ao alto com a porta. Passados uns dias comecei a sentar-me nas escadas ao lado da porta. Agachava-me e abraçava os joelhos. Não fazia mais nada. Choros, choros, choros. Gritos, golpes, coisas a partir. Pratos, garfos e os braços púrpura a pedir comida. Eu fora.
Choveu toda a semana sem parar. Choros. 5 da manhã. A mulher abriu a porta. Tinha uma tesoura na mão. Havia manchas de sangue na roupa. Olhou para mim desesperada. Não estava à espera de ver ninguém, claro, fechou a porta de medo. Ouvi-a lá dentro a recapitular desesperos. Já estava  de pé e as minhas lágrimas azuis caiam ao ritmo que batia à porta, incansavelmente. Ela abriu e gritou-me coisas que não entendi. Acho que não me julgava por estar ali. Apertou-me o pulso e olhou-me fixamente. Mantive-me firme e intacta. Foi ao fundo do corredor e pegou na criança. Deu-ma em braços. Atirou-me fora do apartamento e fechou a porta. Era eu e a cor púrpura. Olhos púrpura nos meus olhos grandes, azuis.


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7.5.10

Bresson e o Cinematógrafo, Costa e a mini-DV





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OS 400 GOLPES


OS 400 DISPAROS




Fotograma de Les quatre cents coups de François Truffaut, 1959
Fotograma de Robocop III de Fred Dekker, 1993

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6.5.10

Easy

Uma vez descobri a password de uma pessoa. Era 'morte'.

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4.5.10

All Tomorrow's Parties


Suspiro. O senhor Vincent Moon, senhor exis-tris-pim-master da LA BLOGOTHEQUE, que nós tanto adoramos, está a menos de 152 metros de mim (nunca tenho bem noção das distâncias, desculpem). Exactamente agora. O senhor está do outro lado da praça onde vivo a derramar a sua sabedoria com alunos de uma escola de audiovisuais. Pois é. E eu aqui. Dá-me comichões, isto. Comichões!
Vai daí lembrei-me do IndieLisboa,  que para além do documentário Adelia, I Want to Love, exibiu o filme All Tomorrow's Parties no qual Vincent Moon dá uma ou duas mãozinhas. E vai daí, lembrei-me da extensão do IndieLisboa a Aveiro. Uma iniciativa do Teatro Aveirense em colaboração com o Cineclube de Aveiro que projectará o filme no dia 27 de Maio às 22h. Thank God we exist.

Quem quiser um pouquinho de adrenalina musical aqui está o filme. Uma colagem exis-tris-pim-tesuda dos músicos que nos partem ao meio e não nos devolvem inteiros no final. Tal e qual como se quer, portanto. Mas aviso-vos já para não saírem da sala com vontade de terem estado dentro do filme. Consta que os bilhetes para o festival ATP são carotes, vá. Eu tenho sempre o SOM DA PRIMAVERA e isso alegra-me. Pás-pum! 
Acho que vou dar um passeio pela minha praça. Não sei... está a chover,  é o dia perfeito. Volto a suspirar.





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8 páginas depois do relato "Salomé y el falso profeta"

El Maestro

Por la tarde, cuando José de Arimatea descendió del monte Calvario, donde Jesús habia muerto, vio que un joven lloraba, sentado sobre una piedra blanca. José se acercó a él y le dijo:
- Entiendo lo grande que debe ser tu pena, pues en verdad ese Hombre era un hombre justo.
Pero el joven le replicó:
- Oh, no lloro por eso. Lloro porque yo también he forjado milagros: yo también he otorgado la vista al ciego, he curado al paralítico, he resucitado a los muertos. Yo también he provocado que la higuera estéril se marchite y he trocado el agua en vino y, aun así, no me han crucificado.

Oscar Wilde

em Relatos do livro El arte de conversar de Oscar Wilde, tradução de Roberto Frías, edições Atalanta



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2.5.10

Super 8 ou A Puta de Luxo


Sabem quanto se paga, hoje em dia, por um minuto com uma super 8? Um balúrdio. Tem que ser algo maravilhosamente recompensador. É a puta de luxo e a mais madura das câmaras de filmar contemporâneas.
Curiosamente Pedro Almodóvar deu tudo por esta menina para fazer a sua primeira metragem. A juventude tem os seus caprichos. Amou-a e cuidou-a. Deu-lhe um nome: Salomé (nada que ver contigo, meu amor). Mas sim, tratava-se de vender o corpo em troca de um sacrifício. Baseada na obra Salomé de Oscar Wilde temos acessos a rasgos do que virá a ser todo o trabalho de Almodóvar. Lembro-me que quando vi a curta-metragem pela primeira vez (suponho que há dois anos atrás), existia uma aura criminosa inexplicável que me torturou pecaminosamente. É, isto de nos vendermos ao luxo sai caro. Caro como a película para a Super 8.

O filme Salomé é de 1978. E aqui está:





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