Sou só eu que acho que o senhor pintado na parede parece o Fernando Alvim? O fotograma é do filme Mur Murs da Agnès Varda, um documentário de 1980 filmado em Los Angeles. A Agnès vai para Hollywood e quem é que aparece? O Alvim!
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Prefiro mil vezes a consciência de que a nossa vida não é um drama (e portanto muito, muito aborrecida); que verdadeiramente e veementemente acreditarmos que se vive na maior tragédia à face da terra. Todos gostamos de espadas e corpos dilacerados. Eu também. Quantas vezes aqui afirmei que te queria cortar aos pedaços e meter-te no congelador? Umas quantas. Tudo verdade; sou a primeira a atirar-me a pedra (olha eu a levantar a mão direita que segura uma pedra até cima da minha cabeça e a deixá-la cair... pumbas!). Mas quem chega até mim com as suas espadas e seringas (e às vezes há quem venha com analgésicos; depende da geração), vê logo que sou mentirosa. A mim não me apetece cortar ninguém. Muito menos a ti (por exemplo, este "ti" podia ser do drama, mas não é). E sou assim. Porque na verdade há muita pouca ciência (ou paciência, que também ficava aqui bem, mas não quero ir por aí e nem seria bem assim) no drama. E entre ciência e arte, eu escolho a ciência. É que dá-se um dia em que percebemos que "ser da arte" não é usar o sangue como tinta; mas descobrir a equação química que converte as propriedades da hemoglobina numa tinta infinita.
Na minha cabeça, o local da peça abaixo, do filme Angel do Joseph Cornell, e este local do filme Elegy (Isabel Coixet) são o mesmo sítio. Não me perguntem porquê. Eu disse-vos que isto dos lugares e maravilharmo-nos com eles e tal, tem muito de sagrado. É preciso um bocado de fé, às vezes. A lição: locais revisitados = fé.
-Se me atirassem ao chão, desta vez, não iria gritar. Foi assim que aconteceu quando arrumei a tralha pela primeira vez. Tudo no lugar, sim, estava tudo no devido lugar. Hoje, se me atirassem ao chão, as cicatrizes não iam abrir e o chão seria cómodo. Agora, as minhas cadeiras e lâmpadas estão violadas. Já não servem a sua utilidade; já não estão no devido lugar. Mais, o lugar já não existe.
-Três vezes inspirei o teu nome. Não para me calar, para te calar a ti.
-Sobra-me espaço aqui. Não tenho onde cruzar as pernas, nem posso apertar-me contra a parede. Alugo metade de um quarto!
-Mãe entra pelo quarto a dentro e diz à minha irmã: -Ah, ainda está a dormir. Ah, ela não está sozinha, são dois corpos… ainda não estou preparada para isto. Ah, mas é um homem ou uma mulher? - Mãe sai do quarto.
-Ainda não mergulhei no mar; já vi os olhos da Annika.
-Esta semana vou ao Porto. Não, vou a Lisboa. Ao Porto, a Lisboa?!
-Recomeçou a época balnear das sessões de cinema em minha casa a horas menos prováveis. É só aparecer.
Estou cansada. De tanto, de tudo, disto. De ser sempre da mesma maneira. De malas, mudanças e merdas de esperanças. Estou cansada por não dormir há 3? 4 dias? Estou cansada de partir. Estarei da mesma maneira ao chegar.
Tenho o Ne change rien do Pedro Costa em casa para ver. Mas ainda não o vi no cinema. E estou a contorcer-me toda, entendes?
Tenho, definitivamente, que acordar cedo e ir tomar o pequeno-almoço aos cinemas Alexadra que é o único sítio onde exibem o filme (que só estreou este mês em Espanha). Só há sessão às 10 da manhã e, por 5.70€, dão-te o pequeno-almoço mais o filme. Barcelona no seu melhor. Eles aqui chamam-lhe uma matinal com desayuno, entendes? É o pacote completo de uma noite que "ne change rien".
É sempre assim. Quando nos despedimos para sempre é que entendemos o quanto nos merecemos. E com um bocado de coragem e álcool, não é difícil partir corações. Foi o que aconteceu. Pois sim, A., eu também sabia que te merecia um espaço tão grande como o que eu te dedicava a ti sem saberes. E a ti, R., intuía que dar cambalhotas e dançar até às 7 da manhã seria o nosso futuro, mesmo que me competisse dar-te sempre comida na boca e abrir-te a porta de casa porque tu já não serias capaz. Contigo, M. trocaríamos livros incansavelmente porque na verdade somos umas românticas de merda. A vocês, E. e Ad., sim, era convosco que ia chorar por me sentir tão pequena. E contigo, J., não te permitiria entrar nos meus olhos como entraste, mas dar-te-ia sempre abraços dos nossos; e não serias tu o desprotegido porque a vulnerabilidade também mora por aqui. Dizer adeus é sempre tão revelador e tão, tão, penoso.
A fotografia é do primeiro festival de Cannes em 1946.
Não posso negar que não me tenhas influenciado a semana, o mês, o ano.
Slavoj Žižek transpirou-se (como se pode ver pela fotografia), literalmente, no ardente auditório do Instituto Francês de Barcelona. O tema era "O que se passou com a verdade? O que se passou com a revolução?" e o filósofo fez-me as delícias ao começar o tema com cinema: Charlie Chaplin, e a percepção sonora através do corpo. Como ouvimos os movimentos? Como se dá essa pequena revolução de verdade? Tumbas. Cartas lançadas para o que seriam duas horas extraordinárias de uma consciência mordaz do que é este nosso cosmos político, social e cultural. A palavra chave foi "cinismo" e aí doeu onde tinha de doer. Falou-nos das mentiras que toleramos e alimentamos; numa fetichista transposição de verdades. Slavoj ganha pelo trejeito nervoso e pelas palavras simples como apenas os grandes sabem fazer. Ouvia-o durante horas e horas. Para terminar este post mais uma nota fílmica de Slavoj: Para se fazer a revolução há muito que entender Fight Club de David Fincher (1999), na cena reveladora em que antes de bater no patrão, tens que te esmurrar a ti próprio.
Tudo a revolucionar-se, por favor. E não ler "tem que começar por ti", ler "tem que começar por mim".
A fotografia foi retirada do arquivo do el País online.
Me resisto a describirme, por temor a que un exceso de detalles particulares os haga tomar mi problema con menos seriedad. Pero puedo describiros a Nicky, y así también, por inversión, me estaré describiendo a mí.
Do livro Yo, etcétera de Susan Sontag (o meu novo vício que não ouso traduzir)
Baby, we used to make love watching movie trailers. Now you're a single man with a bass guitar.
(prometo que este blog não vai passar a ser um expositor de fotografias minhas, mas ohmm...ando a ver se algum dia consigo dominar uma máquina fotográfica)
Ando a comer pecados e são bem vermelhos. Se bem que já não tenho paciência para pecar. Oh, é tudo tão confuso...
(NOTA: todas as fotografias que não têm referência aos seus autores ou proveniência, ou admitem a origem desconhecida, ou são minhas e fui eu que as tirei)
Achei bastante cómico ter recebido uma mensagem no meu telemóvel português a dizer que a Teresa e a Helena já estão casadas. Teresa e Helena, vocês estão no meu coração! É o que dá ter aderido às "notícias de última hora do jornal Público no seu telemóvel".
(Baby, eu sei o que estás a pensar...que nós as duas vamos ser das próximas. Damn right! Temos é que esperar até aos 50 porque esse é o acordo pré-nupcial.)
Não sei bem quando é que começou a minha admiração pelas proporções. Hmmm, talvez numa cena do filme The Postman Allways Rings Twice, um filme de Tay Garnett de 1946. Era aquele plano em que os fugitivos deixavam uma nota de despedida na caixa registadora que seria o local privilegiado onde o marido abandonado e somítico iria desembocar inevitavelmente à procura de justificações. Claro! Não fosse ele ser roubadinho... isso é que não, a mulher até pode ir, agora... com dinheiro é que não se brinca. A caixa, o bilhete de despedida e o dinheiro ganham uma proporção avassaladora em que palavra alguma teria relevância.
Em Eyes Wide Shut, filme de Stanley Kubrick de 1999, há esta proporção “viva” que é o motor da própria condição poética da narrativa. Não se espera nada mais deste encontro porque as hipóteses estão esgotadas desde o início. Como aponta Slavoj Žižek (não nestas palavras): a fantasia real e vivida pelo personagem do Tom Cruise não chega aos calcanhares dos sonhos da sua esposa, interpretada pela Nicole Kidman. Daí não admira parecer que ele nem sequer parece estar ali, naquele encontro, naquela casa e na cama desta espécie de prostituta. Isto leva-me a equacionar as proporções dos beijos reais (os oníricos são outra história). E acho que é um assunto sério.
Fotograma de Eyes Wide Shut de Stanley Kubrick, 1999
You wrote your name on a paper and gave it to me; for years in my pocket where no-one could see. How can I change the way I felt? I slipped the paper in the pocket of somebody else. Won't you teach me to bear you? Someone with matches; someone with bronze; someone with blue eyes to gaze upon. Your name, your whole story, your whole life to see. The story you had given to me. Won't you teach me to bear you? I want to read you a life of parties and wisdom, of care and explosions and wild summer eves...but my hands are empty, and my throat cracked and drawn, because I gave away the name you gave to me. Yes I sang away the name you gave to me.
(já agora, não me quero fazer de forte, mas decidir não dormir é uma das coisas mais corajosas de sempre)
- Mas podia ser tipo Roberto Carlos e dizer: "estou à espera de você desnuda frente a mim". Roberto carlos, o Rei.
- Oh...já te disse que o Rei é o Reininho, e o que o Reininho disse foi: "Gritar que te amei...aquele el rey....inversão na auto-estrada". Ou seja, evitar acidentes.
- Ou seja?!
- Ou seja; não fazer inversões na auto-estrada. Vês, o meu rei é muito melhor que o teu.
- Nunca. (silêncio) acabou de dizer agora no reclame da RTP, que Rei é sinónimo de Elvis, portanto nem eu nem tu ganhámos ...
Nós já não acreditamos num todo como interioridade do pensamento, mesmo aberto, acreditamos numa força de fora que se cava, ingurgita-nos e atrai o dentro. Já não acreditamos numa associação das imagens, mesmo ultrapassando vazios, acreditamos em cortes que tomam um valor absoluto e subordinam qualquer associação. (...) O cérebro corta ou faz fugir todas as associações interiores, chama um fora para além de qualquer mundo exterior.
Gilles Deleuze, A Imagem-tempo
Fotogramas do filme Nói Albínói de Dagur Kári, 2003
Isto só vem provar a minha fascinação pelos livros para a infância. Há umas quantas histórias/pancas minhas com livros para crianças (como por exemplo o facto de eu ter uma árvore no meu quarto como o personagem do livro "Eu já sei bem") Por falar nisso, feliz dia da criança! Que agora podemos ir ao pediatra até ao 18 anos, o que é fixe porque no final da consulta, e se nos portámos bem, o médico dá-nos um chupa. yupi!
Ilustração do livro O Primeiro Gomo da Tangerina, com ilustrações de Madalena Matoso e texto de Sérgio Godinho, edições Planeta Tangerina
Começa pelo lado esquerdo. Primeiro o nó pequeno, já está. Agora sente bem a corda a deslizar entre os teus dedos. Uma volta pequena, duas voltas, cada vez mais espaçado. Agora, o outro nó. Não o consegues desfazer com as mãos. Está mt apertado, é o mais antigo e deste eu nunca me consegui desfazer nas minhas tentativas de fuga. Toma esta faca. Olha-me nos olhos. Não há dúvidas. Pega na faca. Corta e não chores. Um golpe só, anda. Agora traz o vestido. Veste-me o corpo. Não tenhas medo, lembrar-te-ás sempre desta cor. Levanta-me um pouco, ajuda-me a sentar-me. Ok. Já está. Ai o meu pé, o meu pé. Não chores. Ajeita os meus cabelos...por detrás da orelha, pode ser. Tira-me o sujo de terra da cara. Limpa com a manga da tua camisa. Humedece-a com saliva. Ok. Pinta-me os lábios. Está bem, está bem, os meus lábios não. Não exasperes. Estamos calmos, os lábios não, os lábios não. Agora liberta-me as mãos. A chave está no teu cordão prateado. Roda a chave. Já está. Ouve-me. Estás preparado? Vou rodear-te a nuca com as minhas mãos e vou dizer-te uma coisa importante. Vou embora. Nunca mais, quero que saibas que nunca mais. E tu vais ficar aqui até eu poder estar longe. Dá-me a mão. Ok. Já estou de pé. Não chores. Vou. Agora.