19.8.10

Je vous salue Marie



Acordei hoje a meio da noite desorientada. Por incrível que pareça, tinha a cabeça no lado oposto da cama. Dei a volta sobre mim, pés para cima, cabeça para baixo. A nascer. Mãe, estava a ajeitar-me. Mãe, vou nascer. Prepara-te que isto pode doer um bocado.

Fotografia aqui da bebé.


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16.8.10

Recalcamentos freudianos

Hoje acabei um livro que tinha começado a ler na viagem (definitiva) de regresso de Barcelona para a minha cidade natal. Estava a estranhar a demora na leitura deste livro e não entendia porquê.  À falta de melhor, o marcador do livro era o bilhete de autocarro que me levou de Arc de Triomf (onde fica a estação de autocarros de Barcelona) até Girona. Quando acabei o livro, no impulso de dar por finalizada a leitura, peguei no marcador para meter no lixo. Com a mão estendida para o caixote do lixo, desatei a chorar.

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Posologia: 8 em 8 horas (Adenda)


Enfim... estou mesmo a precisar de medicamentos. E só hoje ao reler este post é que percebi isso. Não me ouço a mim própria, claro, dá asneira. Coitado/a do B. Sempre a levar nos cornos. Fogo. Eu sou piedosa e justa. Então era para ser assim:


A. despedaça o coração de B. às 13h.
C. despedaça o coração de A. às 21h.

Faça-se justiça. Aqui a Annie, com esforço, promete começar a tomar os medicamentos.

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15.8.10

Susan Sontag, essa tipa





"Disse-lhe hoje: «Amo-te». Ela respondeu: «E o que tem isso que ver?»
Esta noite (quando ela foi até ao porto), passei uma hora a masturbar-me e a estudar a minha cona  com um espelho. Contei-lhe quando ela voltou. «Descobriste alguma coisa?», perguntou ela. «Não», respondi eu."

in Renascer de Susan Sontag.


Nota: Passagem escolhida a dedo para dizer ainda isto: vejam o que me fizeram os Magnéticos, na revista Magnética (pag: 93)- Ana Rocha, essa tipa.

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Posologia: 8 em 8 horas




A. despedaça coração de B. às 13h. 
C. despedaça o coração de B. às 21h.


foto perdida no meu arquivo, fonte desconhecida

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14.8.10




E sempre que os dedos lhe saiam pela boca à procura do líquido pericardial, não encontrava mais do que o poder de conseguir controlar a ira. Em vão, tudo. Não saber para que é que se serve. Não saber porque é que se come. Não saber se o fumo inalado tem resquícios de amor. Quase nunca escrevo a palavra 'amor'. Não é em vão; não será em vão. E ainda assim, os dedos procuram a  boca. E talvez um dia chegar ao ponto de dizer: não mais amor.

Fotograma do filme Elegia de Isabel Coixet, 2008
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9.8.10

Ana Maria Isabel Joaquina e os nomes completos





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Colorness green ideas sleep furiously

Nomear 5 detalhes:
1- Pingo Doce
2- Todos sabemos que o símbolo do Pingo Doce é essencialmente verde.
3- Sim, procuraram este blog por "pénis temperado" Vieram ao sítio certo!
4- Gostar de dormir furiosamente não é a minha cena, portanto não sou como as ideias verdes sem cor. Mas relembro que o símbolo do Pingo Doce é verde
5- Martinis, muitos.

Tem lógica, pá.
Fim da história (se alguém conseguir tirar alguma coisa daqui, eu bato palmas. Eu própria não conseguiria. Mas uma gaja tem que dizer o que uma gaja tem que dizer).

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8.8.10

Don't mess with my boys (nem de propósito)




BECAUSE THEY WILL KICK MY ASS.

Ainda assim, e não sendo eu particularmente fácil, obrigada meninos.

A fotografia vem quase aleatoriamente do google. 

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7.8.10

Don't mess with my girls (Susan Sontag e Agnès Varda)...







...BECAUSE THEY WILL KICK YOUR ASS

Como eu as adoro. E aquelas olheiras da Sontag, as minhas para lá caminham. E aquele nariz empinado da Agnès... melhor nem explicar porque é que ninguém gosta de mim à primeira vista.

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6.8.10

Há dois dias que o meu olho esquerdo não pára de tremer. E eu a achar que estava tão serena. E eu a precisar de serenidade.


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Os predadores não usam baton





fotografia também cá da casa
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Açores (réplica nº1)





ténue corte de estrada.
a estrada cortada
que os teus pés deixem os meus ao mesmo tempo.
espera-se o corte 
espera-se


fotografia cá da casa
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31.7.10

Açores

Nove da manhã, acordo. Aqui sou só eu, suficientemente. Isto é tão importante.

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27.7.10

-Olha eu a ir para os Açores rezar ao Espírito Santo. 
-Olho

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23.7.10

surpresas suspensas


- Não me insultes, rapazinho- disse o lobo.- Estarás a insinuar que és mais esperto que eu?
- Desculpe, senhor lobo, mas tenho medo de esperar tanto tempo...
- Como quando me apetecer- retorquiu o lobo, dessa vez com uma voz de trovão-, e é como comer-te duas vezes, uma a que tu estás à espera e a outra a verdadeira, quando estalares nos meus dentes!
- Suplico-lhe, senhor lobo, coma-me já. Daqui a bocado estarei demasiado apavorado.
-Serás ainda melhor!- disse o lobo.
Contudo, vencido pela curiosidade, João perguntou:
- Então que vamos fazer enquanto esperamos? 
- Contar histórias*- disse o lobo.- Adoro histórias
Com um sorriso que o tornava verdadeiramente encantador, acrescentou:
- Além disso, abrem-me o apetite!
O João arriscou-se a aproximar-se um pouco.

Barba Azul, Papão e C.ia de Eric Joudan


* lembrei-me do filme Shirin quando Shirin dizia algo como: "o caminho é longo; encurtamo-lo com histórias de amor". Não foi?



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Ironia

Não me surpreendas, não; que não é preciso.
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21.7.10

"VENHO RENASCER NO TEMPO RECONTADO NESTE CADERNO"




Por motivos pessoais e profissionais (pelo menos gosto de pensar que assim é) ando com a Susan Sontag atrás. Consta que ainda vou falar muito disto (esperem pelas surpresas), mas, para já, há um sentimento arrepiante ao ler os diários de Sontag. São os diários, ora bolas!
Com 14 anos, Sontag escreve:
"Acredito:
(...)
c) Que a única diferença entre os seres humanos é a inteligência
d) Que o único critério de uma acção é o seu efeito último em fazer o indivíduo feliz ou infeliz "

Juro que me emocionei. Juro que também eu vou renascer mas com o cuidado de não o fazer por ela. Fazendo-o o por mim. Porque se ela soubesse que ando a ler os diários dela, era bem capaz de me dar duas chapadas! Eu já tentei bater-me, prometo. Mas a verdade é que não consigo parar.

capa do livro Renascer, Diários e Apontamentos de Susan Sontag
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18.7.10

Annie chora Annie



Fausta- "Tira isto de dentro de mim. Tira isto de mim. Tira. Tira isto de mim"

Texto e fotograma do filme (já não vale a pena dizer qual. Sim, estou obcecada).

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Annie chora Fausta















"As minhas pérolas são vocês que eu carrego todos os dias ao peito", disse a minha Mãe. Pérolas espalhadas, demasiado valiosas e que se contam uma a uma. Já não estou a falar das da Mãe, estou a falar das minhas e depois das de Fausta. A filha carrega a mãe às costas, filha das entranhas da Mãe, da Mãe de Fausta. Vieram de longe com as suas crenças nas quais não acredito mas cumpro impiedosamente. Bolbos, tubérculos no escuro. Quando o lado de dentro da mulher se fecha pelo útero e estanca o desejo. Daqui nasce o rizoma dos segredos, dos de Fausta. Ela falava-me do medo de mim. Tanto. Tanto, que já tanto faz. Engole-se mais um pouco, mastiga-se e sobra a voz a soar. Aquela voz a soar. Mais uma vez; não nas minhas crenças, nas dela, nas de Fausta. São ténues para o mundo, são asfixiantes para quem as colhe. Não terá peso exclusivamente cinematográfico, mas La Teta Asustada é tudo o que não se espera que um filme me dê. E, a transbordar de dor, deu.

Fotogramas do filme La Teta Asustada de Claudia Llosa, 2009.
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Mãe canta. Annie chora




Talvez, um dia, tu entendas o quanto eu chorei. Eu implorei àqueles cretinos. Naquela noite eu gritei. Ecoou nas colinas. E as pessoas riram. Lutei com a minha dor e disse. Um cadela com raiva deu-te à luz. É por isso que tu comeste os seios dela. Agora, podes engolir-me, podes sugar-me. Como fizeram com tua mãe. Esta mulher que canta foi agarrada e violada naquela noite. Eles não se importaram, com minha filha em gestação. Eles violaram-me com seus pénis e mãos. Sem nenhuma pena da minha filha que os via lá de dentro. E não satisfeitos com isso eles fizeram-me engolir o pénis morto do meu marido Josefo. Seu pobre pénis temperado com pólvora. Com essa dor gritei. É melhor que me matem e me enterrem com Josefo. Não tenho mais nada aqui.

Cena inicial do filme La Teta Asustada. Texto cantado à capella.

Fotograma do filme La Teta Asustada de Claudia Llosa, 2009.


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16.7.10

Proposal


Hoje, oficialmente e pela primeira vez na vida, fui pedida em casamento à séria. Recusei, claro. Mas o "interessado" disse-me que se eu mudasse de ideias podia voltar àquele sítio que ele esperaria por mim. Era ucraniano e disse-me que era bom homem e que tinha carta de condução.
Já tive amores muito menos fiéis que isto.

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14.7.10

Não consigo parar de rir







Vejo em loop e rio-me sempre.
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A minha felicidade dos livros





O meu caos é bem mais pequeno que o do Pedro Mexia, mas ainda assim, o sentimento é muito parecido.

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13.7.10

She's my person (sim, como se diz na Anatomia de Grey)





Quando a TUA pessoa está a centenas de km de distância a comunicação é rápida e eficaz. Nisso, a minha pessoa bate qualquer outra pessoa. Nisto, a minha pessoa faz-me tanta falta. Nisto, a minha pessoa saberá que não posso viver sem ela. 



o fotograma usado é do filme Elegy da Isabel Coixet, 2008

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Inversão de sentidos




Humbert- Yes. Now, look, Lolita...
                      I have a great feeling of...  ... tenderness for you.
                      While your mother is ill, I'm responsible for your welfare. We're not rich, and while we travel
                      we shall be obliged... We shall be thrown a good deal together...
                      ...and two people sharing one room, inevitably enter into a kind of...
                      ...how shall I say, a kind of....
Lolita- Aren't you going to go down and see about the cot?




(Agora sinto-me nova outra vez).

Fotograma de Lolita de Stanley Kubrick, 1962.
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Cross my heart and hope to die



Sobre o regresso (exercício nº3):
Lolita- But everything has changed all of a sudden.
               Everything was so, I don't know, normal.
Humbert- Lolita, please, please, don't cry.
                     We'll do things. We'll go places.
Lolita- But there's no place to go back to.



Sobre o passado:
Lolita- You will promise, won't you?
Humbert- Yes, I promise.
Lolita- Cross your heart and hope to die?
Humbert- Cross my heart and hope to die.
                     Cross my heart and hope to die.
                     Cross my heart and hope to die.





Não consigo não cantarolar esta música ao ouvir "Cross my heart and hope to die". É que tenho muito orgulho neste álbum do meu ano (1986) que eu comprei contigo há muitos anos atrás (quando me levaste às Lisboas, só os dois, dessas viagens que só agora podem ser reveladas). Há muito que aprender daqui: Everything but the girl, Baby the Stars Shine Bright. Ai, hoje sinto-me velha.

Fotogramas do filme Lolita, de Stanley Kubrick, 1962.

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10.7.10

Annie in Revolt



Já alguém viu o Youth in Revolt? Aposto que ia detestar! Mas é que o Michael Cera é tão, tão a minha cena que estou prestes a cometer a loucura e ver o filme. E fica aqui a prova que eu já não me interesso por rapazes com calças de pijama, ok? Já passei essa fase. Agora gosto dos lavadinhos.

Fotograma do filme Youth in Revolt de Miguel Arteta, 2009.

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Alvim?



Sou só eu que acho que o senhor pintado na parede parece o Fernando Alvim? O fotograma é do filme Mur Murs da Agnès Varda, um documentário de 1980 filmado em Los Angeles. A Agnès vai para Hollywood e quem é que aparece? O Alvim!


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Prefiro mil vezes a consciência de que a nossa vida não é um drama (e portanto muito, muito aborrecida); que verdadeiramente e veementemente acreditarmos que se vive na maior tragédia à face da terra. Todos gostamos de espadas e corpos dilacerados. Eu também. Quantas vezes aqui afirmei que te queria cortar aos pedaços e meter-te no congelador? Umas quantas. Tudo verdade; sou a primeira a atirar-me a pedra (olha eu a levantar a mão direita que segura uma pedra até cima da minha cabeça e a deixá-la cair... pumbas!). Mas quem chega até mim com as suas espadas e seringas (e às vezes há quem venha com analgésicos; depende da geração), vê logo que sou mentirosa. A mim não me apetece cortar ninguém. Muito menos a ti (por exemplo, este "ti" podia ser do drama, mas não é). E sou assim. Porque na verdade há muita pouca ciência (ou paciência, que também ficava aqui bem, mas não quero ir por aí e nem seria bem assim) no drama. E entre ciência e arte, eu escolho a ciência. É que dá-se um dia em que percebemos que "ser da arte" não é usar o sangue como tinta; mas descobrir a equação química que converte as propriedades da hemoglobina numa tinta infinita.

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5.7.10

A urgência de voltar a permitir que nos deixemos maravilhar (exercício sobre o regresso nº2)






Na minha cabeça, o local da peça abaixo, do filme Angel do Joseph Cornell, e este local do filme Elegy  (Isabel Coixet) são o mesmo sítio. Não me perguntem porquê. Eu disse-vos que isto dos lugares e maravilharmo-nos com eles e tal, tem muito de sagrado. É preciso um bocado de fé, às vezes. A lição: locais revisitados = fé.


Fotograma do filme Elegy de Isabel Coixet de 2008

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