1.12.10

Quadros, quadrículas, histórias e(m) potência(s)









Aqui estou eu entregue ao desespero da matemática. São demasiadas as geometrias, as linhas, o vertical e o horizontal como a revelação do bem e do mal. No final, já não há certo nem errado. Só há uma infindável lista de ses. Tantos ses, que para além de se reproduzirem no inconsciente subdividido do espectador, estão, ainda, dentro da própria imagem. Janelas, esquadrias, portas, cordas, rectângulos... infinitos rectângulos. Infinitas possibilidades dentro de regras que já sabemos que foram quebradas. E só o sabemos porque o fora de campo é tramado. Porque Mike Nichols é um filho da mãe e nem se dá ao trabalho de nos mostrar o facto. É o seu idioma (atenção, porque eu respeito-o bastante). E ficamos com os ses; tantos, tantos quanto a matemática (leia-se: matemática para quem não a domina) nos pode torturar. Ses perversos mas exactos. Agora; quando se trata de representação pictórica, o poder do desenho é uma arma avassaladora e todos estes quadrados fazem-me pensar, obviamente, em BD. E a coisa complica-se sem que consiga explicar bem (até porque na banda desenhada a história desenha-se dentro de quadrados desenhados, topam?). Mas vou mostrar-vos. Estamos já elevados a que potência? É que eu perdi-me.




(note-se que o peso de Who's Afraid of Virginia Woolf  dura uma noite num filme de 130'. Em Sleepwalk bastam-nos, por agora, 6 rectângulos.)


Fotogramas do filme Who's Afraid of Virginia Woolf de Mike Nichols, 1966
Excerto do livro Sleepwalk: and other Stories de Adrian Tomine

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29.11.10

Este blog fez um ano e eu esqueci-me.



Façam-lhe uma festa surpresa para compensar.


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Dizer de boca (réplica nº2)


Tenho uma amiga que é farmacêutica e trabalha numa aldeola. Perguntou-me, muito séria, se eu alguma vez tinha tido a necessidade de aplicar a expressão "boca do corpo". Disse-lhe que não. Ela fez uma cara desiludida e disse-me que a malta do cinema não entende nada e nem sequer está sensibilizada para a complexidade linguística das utentes de Portugal.
Concordei com ela. 

(Viva o Canesten Vaginal, a arminhar a poesia farmacêutica desde não-sei-quando)

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Dizer de boca (réplica nº1)


estende a tua mão contra a minha boca e respira,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo.

Humberto Helder no Ofício Cantante.


(btw, o Ofício Cantante foi o livro que mais vezes embrulhei contrariada porque nunca nenhum era para mim. Achava que nenhum dos clientes da livraria onde trabalhei o merecia... bem, pelo menos enquanto eu não tivesse um para mim... que ainda não tenho, caso algum familiar esteja a ler este post. Oh, jingle bells, jingle bells. Jingle all the way... la la la).


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Dizer de boca



- Sabe, o meu pai não é homem para escrever. Assinava o seu nome tão bem como qualquer outro e até lambia o lápis. Mas cartas, nunca escreveu. Dizia muitas vezes que aquilo que se não podia dizer de boca, também não valia a pena pôr no papel.


em As Vinhas da Ira de Jhon Steinbeck

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Onde estás? Aqui



literalmente, ali.

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Frio Vs Amor

Enquanto conduzo pela cidade vazia a caminho de minha casa passo por 3 ou 4 pessoas. Cada uma delas caminha completamente sozinha pelo frio da rua. Cabisbaixo, claro, numa destas noites aveirenses onde a tempestade concentra-se nos ossos e  o corpo se reflecte como um escudo protector.
Não tenho pena delas. Só há um motivo que as faça sair de casa. Se se deslocam a estas horas é porque vão fazer amor. Alegro-me.

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22.11.10

All together




Como é tão raro vê-los no mesmo plano, aqui estão! Funcionam tão bem cada um no seu lado (da câmara)  porque lado a lado são tudo isto.

Adriano Sodré do nosso querido Interlúdio.
Teresa Queirós do Interlúdio (também) e do An itsy bitsy self.

Fotografia minha


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20.11.10

the will to death




Longidão não existe, mas mói. Ou será que mata? 
Longidão não existe.

Fotografia de Mary Robinson

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19.11.10

Mazurcas




(não sei há quantos anos trago esta música no peito. provavelmente há demasiados)

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16.11.10

É giro, porque eu ontem não chorei. Não conseguia. O meu corpo tinha tantas outras coisas para fazer... não tinha tempo para chorar. Hoje acordei. (Acordei?!! como se tivesse dormido) e há luz, e os carros e as pessoas passam lá fora. Tornam tudo vivo. E eu estou morta. Então choro agora.

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15.11.10

bang bang (réplica nº1)

Não é uma operação de associação, mas de diferenciação, como dizem os matemáticos, ou de desaparecimento, como dizem os físicos: um potencial estando dado, é necessário escolher outro, não qualquer mas de tal maneira que uma diferença de potencial se estabeleça entre os dois, que seja produtor de um terceiro ou de qualquer coisa de novo.

Deleuze



Fotograma do filme La Double Vie de Veronique, de Krzysztof Kieslowski, 1991

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Bang Bang







Fotogramas do filme La Double Vie de Veronique, de Krzysztof Kieslowski, 1991

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12.11.10

Pão e cigarros





São crianças e pediram-me uma das cadeiras da minha mesa. Dei. Depois levaram-me o isqueiro e o cinzeiro. Dei. Pediram pão e comeram. Agora fumam-me cigarros de paciência com bolas de pão mastigado no canto da boca.

Fotografia de Joseph Szabo, 1969

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contas vezes contas

Sem mais sete vezes trinta e uma oportunidades de falhar, fico eu sem menos trinta e uma vezes sete oportunidades de te dizer que não sei onde vou parar. Ficas tu duzentas e dezassete vezes com tudo, dás-me duzentas e dezassete vezes o tudo ou nada da nossa vontade de fugir.

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10.11.10

Faz o frio ou Detesto dormir cheia de roupa

Tenho 3 pares de meias calçadas, uns leggings e umas calças de pijama, duas camisolas de algodão e um casaco de lã. Tenho lençóis, edredão, uma manta e 3 cobertores... Carambas, isto podia resolver-se de forma tão mais simples...

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4.11.10

S.



JACK- (...) Esvaziei a minha carteira. Era de esperar que um miúdo aceitasse subornos: mas tu não. (pausa) Ele [o Pai] já se tinha ido embora há um ano, quando tu fizeste oito anos e começaste a desmaiar. Na escola andavas a desmaiar a toda a hora, a professora ligava-me, eu dizia-lhe que era de família. (tempo) Sabes aquele sonho? Estamos a caminhar à beira de um precipício e está vento e escorregadio, estamos os dois lá em cima e tu és pequeno e estás a fazer disparates, não me prestas atenção e eu estou mesmo a ver o que vai acontecer e depois tu Cais. Escorregas-me da mão e cais no precipício. Eu vejo-te no ar, a cair, a ficar mais pequeno, e depois Desapareces.

Pausa

Então comecei a falar. Contei-te tudo sobre o pai. Tudo aquilo que me viesse à cabeça. Punha um prato com comida à tua frente, um copo de leite, um bocado de pão. Tu ouvias-me como se eu fosse um Deus a falar e comias o que eu te pusesse à frente.

Excerto da peça "Num dia igual aos outros" de John Kolvenbach.

(Este tipo; és tu a falar-me. E aquela da imagem és tu, e sou eu a ver-te enquanto caio.)

Fotografia da Annie
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É assim que eu faço



"Havia muitas formas de fazer isto.Tu pegaste isto pelos tomates.": foi, até hoje, o melhor elogio que um Professor me deu.

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Cortei o fora e o dentro



Cortei o fora e o dentro. Estou dentro; encostada às portadas. Estou fora; espalhada nas luzes que resistem. 

Fotografia da Annie

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14.10.10

Bad idea



Steffen Basho-Junghans- Inside the rain



Ouvir parte do concerto do Steffen Basho-Junghans completamente às escuras num cubículo de 1 metro quadrado, sem poder vê-lo a ele nem a ninguém... só a lidares contigo próprio: Not a good idea.

Fotografia de Nuno Cassola

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13.10.10

Notícia de última hora: a Annie apaixonou-se.


Depois de longos e solitários meses, Annie descobre uma nova razão para viver. 
O seu arrebatamento é tão forte e descontínuo que Annie quase que desmaiou. Mas respondendo às nossas questões em primeira mão, ainda na ambulância, Annie diz que, e passo a citar, "é tudo uma questão de tamanhos."

 Ora clica Aqui, meu amor!! 


Vá, deixem-me ser assim só hoje. Post ao abrigo das normas jornalístico-literárias do Correio da la Mañana.

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12.10.10

Go get some Rosemary



E o miúdo acertou. Quando o Pai lhe perguntou eu fiz as minhas apostas. E também acertei!
Vão-me Buscar Alecrim soube a muitas coisas boas, mas a pouco também.

Fotograma do filme Go Get Some Rosemary dos irmãos Safdie, 2009.

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7.10.10

Ando a dar-lhe na gelatina de morango. E tu?


E gelatina? Funcionará por completo? Hmmm

não me lembro onde desencantei a imagem.
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Nome masculino1. Apetece-lhe Helena. Excitado pelo aspecto triste de Helena. Vai até ao balcão do bar. Está ao lado dela. Pensa: Helena, Helena, por fim. Nome masculino 1 olha-a sem fim. Está a explodir de coragem. Helena olha-o com ar intransponível. Nome masculino 1 diz: "Prova-me que eu estou aqui". Nome masculino 1 ouve Helena, vê-a a afastar-se e segue-a com o olhar; lascivo. Nome masculino 1 bebe de um só trago o resto da cerveja.

Helena. Apetece-lhe beber. Entediada. Arrasta-se até ao balcão do bar. Pede um copo de vinho. Dizem-lhe que vai demorar porque o vinho está na outra sala, etc. e tal. Helena nem ouve o que lhe dizem até ao fim. Pensa: Nem para beber, porra Helena. Diz: "E tu porque me olhas?" Vinho. Finalmente! Helena faz-lhe um brinde; um brinde não, deixou o peso do seu copo embater na garrafa dele. Helena fala-lhe: "Tu estás aqui, eu é que estou noutro lugar". Helena bebe sozinha noutra sala do bar.

Helena senta-se. Diz-lhe: "Não sei dançar".
Nome masculino 2 levanta-se. Diz-lhe: "Queres dançar?"

Helena dormiu mal. Vai à praia sozinha. Senta-se no café da praia e lê. Bebe chá. Helena começa um jogo de olhares com o indivíduo desconhecido da mesa da frente. Ele olha-a e ela fica excitada. Ele relembra-lhe alguém, mas Helena não quer perder tempo a pensar. Helena paga e levanta-se. Helena deixa um bilhete na mesa do indivíduo. O bilhete diz: queres dançar?. Helena sai e caminha junto ao mar, está animada. Helena responde ao chamamento. Helena diz: "Mas eu deixei o bilhete na mesa". Ouve com atenção e responde tremendo-lhe a voz: "Ele não estava ali? Prove-me que ele não estava ali". Helena sente-se quente e agradece ao Nome masculino 3. Helena perde as forças e deixa-se cair à beira do mar. Quando volta a si, lembra-se quem lhe lembrava o indivíduo desconhecido.

Nome masculino 3 segue Helena. Diz-lhe: "Minha Senhora, olhe! Esqueceu-se deste papel numa das mesas". Ouve e responde: "Mas ali não havia ninguém, só a Senhora. Hoje quase que não tivemos gente no café". Nome masculino 3 volta para o café e fecha-o mais cedo que a hora habitual.

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Casa de Lava, Astros e luzes



O horóscopo da semana passada dizia que os nativos de Leão podiam vir a trabalhar com uma mulher influente. Acho que ando um ano à frente do meu horóscopo. Começo a dar-te ouvidos quando dizes que não há luzes intermitentes na forma de alinhar os astros. 
Mas a verdade é que ali está um Leão (Isasch De Bankolé), um homem vivo a braços com o mundo dos mortos. E aquilo que ela tem na mão? É uma luz? Ai, já não entendo nada.

Fotograma do filme A Casa de Lava de Pedro Costa, 1994

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3.10.10

I'm not afraid to be kind

- Eu sei que ando desaparecida, pelo menos é o que sinto em relação a este blog: que ele me está a desaparecer.

- Esta semana prendi-me à vida com concerto da Diane Cluck. Ainda não te disse mas a última música foi uma das minhas favoritas: My Teacher Died. Apertei-me. Contudo, houve uma revelação enorme de algo que não me sai da cabeça. É tão pesado e verdadeiro como isto: I'm Not afraid to be kind. (Não encontro a música, senão, desta maneira).

- Eu sei que ando desaparecida, pelo menos é o que sinto em relação a este blog: que ele me está a desaparecer.

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27.9.10

4 Noites com Anna


Perdi o meu DVD original do filme 4 Noites com Anna. Já o procurei por todo o lado e não encontro. Acho que isto diz muito do que anda a acontecer por estes lados.


Fotograma do filme 4 Noites com Anna de Jerzy Skolimowski, 2008
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22.9.10

Ciclos de vida



(aquelas estrelas ninguém vê, fiquem descansados)

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19.9.10

Flaws, muitas


Bombay Bicycle Club, Flaws

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O meu país



Acho-o arrogante. Vem com aquelas manias da academia estatal e não entende quando lhe minto. Nem entende quando lhe quero dar a entender que estou a mentir. Deixou de querer saber de mim ou de lutar por mim. Simplesmente porque não lhe interesso; e ainda cai no velho jogo de me manipular por um som capital. Eu tentei amá-lo, mas isso não chegou. Na verdade, é implícita a reciprocidade. E isto só faz de nós os dois um grande embuste. A questão é: até quando?

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