No portal das finanças oferecem-me um leque de questões de segurança caso perca a minha password que eu, honestamente, não sei nem consigo responder. Oh, porque é que é tudo tão complicado? *Oh, Drama*
Às vezes não interessa o lugar. Começamos com um artigo de um realizador japonês. Vocês sabem... o Nobuhiro Suwa. Primeiro lemos em inglês, criticamos a intenção da tradução. Esclarecemo-nos em português, alemão e voltamos ao inglês. Discutimos a prática. Eu sou a primeira a trazer os factos à luz da técnica. Faço desenhos esquemáticos com câmaras e possíveis ângulos de enquadramento de determinados planos. Falo-lhe das relações que se estabelecem com a luz e com o que está fora de campo. Daqui saltamos para uma nova fase. Falamos das setas que eu desenhei: da direcção bilateral. Das combinações possíveis entre as variáveis. São actores profissionais, não são actores profissionais. O nome dela é Vanda. Cospe para a cama. A imagem vista pelo espectador na sala de cinema é ela. Aspiramos ser precisas com as palavras. Discutimos as palavras exactas que devemos usar. Exploramos outros caminhos. Lembramo-nos de quadros, esculturas, peças de teatro. Só depois vem a literatura. Carambas, sabemos tão pouco aqui... Isso, sabemos nós bem! Não nos preocupamos. Deixamos a teoria... a sociologia, a psicologia, a filosofia. Escolhemos a antropologia. Pensamo-nos. Libertamo-nos do artigo. Estivemos demasiado tempo nisto: "Pedro [Costa] has not taken advantage of reality to fabricate a pseudo-real world; nor has he attempted to preserv some intact fragments of real life. Vanda signifies both Vanda and Pedro, images crystallized through the interaction with the spectator's gaze. She is a representation of new gazes that contemplate how people can live together...Vanda is now. She is here just now...". Rimo-nos muito, claro. Depois calamo-nos por alguns minutos. Há demasiadas coisas a pairar. As pontas dão nós. Não são os mesmo nós, mas são-nos comuns. Precisamo-nos na teoria. Somos na prática. Também aqui e agora. Somos. Sem mais nada. Com falhas imensas, honestamente. Só para isto é que a teoria nos serve. Negamos o fetichismo teórico, inventamo-nos. Estamos felizes. Vemos outra vez o filme português. Dormimos. Fico doente; ela cuida de mim em alemão.
Fotograma do filme No Quarto da Vanda de Pedro Costa, 2000
Desde as 7 da manhã do dia de hoje e num curto espaço de tempo, começaram a chegar vídeos e fotografias do que está a acontecer na Plaça Catalunya em Barcelona. Vídeos como o que publico aqui em cima emergem em questão de minutos na Internet. Não posso deixar de admitir a minha perplexidade perante a actuação dos Mossos d'Esquadra que continuam a bater em pessoas que simplesmente levantam as mãos em sinal de não resistência e pacifismo. É uma verdadeira injustiça e um insulto à liberdade individual constitucional. Por outro lado não posso descansar pelo número de pessoas que conheço e estimo e que estão, neste momento, nas ruas de Barcelona numa tentativa de resistência ideológica.
O que supostamente está por detrás da actuação humilhante da polícia é a pretensão de fazer uma "operação de limpeza" nesta praça onde estão acampadas, há semanas, centenas de pessoas. O objectivo seria garantir a salubridade do espaço público para uma hipotética celebração festiva relativa à vitória do Barça na Champions League amanhã...
BULLSHIT!!
Não consigo controlar a minha indignação perante todo o cenário que se montou. Questiono-me sobre o que podem pedir estas pessoas; senão vejamos que Espanha já vive numa democracia e isto eleva-nos a um problema mais grave. O que se despreza? A democracia? O que lhe sucede? Como chegámos ao ponto em que a democracia é corrupta, violenta, desmedida, pobre, manipuladora e insuficiente?
Outra questão prende-se com o alegado motivo que justifica a "limpeza": o futebol! Ainda há pouco, neste blog, afirmei que pouco percebo sobre o assunto. Mas deixem-me dizer que o futebol, e ainda por cima uma Champions League, é a cara de um capitalismo podre que vivemos hoje em dia. Milhares de Euros que se pagam e circulam sobre uma minoria de pessoas que muito (ou pouco) se esforçam por viver à custa de jogadores que passam 90 minutos a correr dentro de um campo verde (e não estou a falar apenas do jogo em si: falo dos empreendimentos em infraestruturas desnecessárias- que Portugal tão bem conhece-, negócios milionários pelo pé esquerdo de não-sei-quem, apostas, etc.). Acho macabro.
Sem que a força seja recurso, o que observamos são centenas de pessoas que gestualmente (mãos no ar) se rendem à violência das autoridades e ainda assim são espancadas. Não têm armas. Não? Sim, têm! Câmaras fotográficas, câmaras de filmar, telefones, internet! Nas linhas da frente estão dezenas de pessoas que capturam o momento. Vão deliberadamente para o centro dos acontecimentos com o intuito de 'mostrar', 'dar a conhecer', 'gravar'. No fundo, uma forma de romperem o silêncio que esta democracia nos impõe e que nos vem sustendo a respiração há tanto tempo.
A imagem ganha O poder. O poder! Mas apenas quando a imagem é bem vinculada. Quando circula livremente, quando as televisões a mostram e publicam (estive toda a tarde à espera de ver imagens na TVE internacional e só apareceram umas poucas por volta das 18 horas). Ao mesmo tempo há uma preocupação que me atormenta e que se prende com o facto de o espectador se ir habituando aos cenários de horror que vê diariamente. Uma guerra não sei onde? Vê-se umas fumaradas em planos cinzentos ou meio esverdiados e não vemos as caras nas novas guerras cirúrgicas. Não vemos a morte. Habituamo-nos. Não nos toca, não nos atinge, não nos tira o apetite. O espectador tem que estar formado para receber as imagens. O poder da imagem não faz tudo. Há que ser consciente, crítico, analista. Há que ver as consequências, ver o sangue, as lágrimas. Entender a dor não pode passar pelo simples acto de ver o noticiário. Há que fazer mais.
Em que sociedade política é que isto é possível? Não sei. Mas, por certo, não é nesta democracia.
Vá, agora pontapeiem-no e mandem-lhe pedras pelo excesso de liberdade de expressão. Os media são peritos nesta merda. A começar no realizador e acabar na imprensa... foda-se, não há pachorra para tanta hipocrisia junta.
É enorme a minha tristeza para quem me ensinou isto -justamente, os limites da morte na produção artística- como nenhuma outra pessoa:
"En un momento en que vida y obra parecen haber dicho ya la última palabra. El brillo en los ojos, la mirada firme entre el estupor y la serenidad, eran dominadores comunes (...) con independencia de su desigual valor estético. Como si en lugar de cerrar los ojos ante la muerte próxima, el artista necesitaría abrirlos para dar fe de una especie de obstinación sumergida"
Domenèc Font
Faleceu hoje aos 61 anos um grande professor meu, depois de ter feito um esforço enorme em dar-nos aulas extraordinárias enquanto combatia a doença. Estava para além da teoria, levava-nos muito além do Cinema.
Primeiro, só recebo mails sobre as noites de festa do Indie Lisboa e quando fui buscar o meu press card ao acolhimento do festival disseram-me que vou ter um cacifo onde os outros acreditados podem deixar-me mensagens. Acho que a malta vem para uma ramboia lixada, pá!
No meio disto tudo o que me deixou bem contente foi receber o catálogo dos filmes super detalhado, que, isso sim e deixem-me adiantar, é um bem valioso.
Aos meus amores imaginários de quem eu não gosto, aos meus amores imaginários que não gostam de mim, ao meu amor imaginário de quem eu gosto e também gosta de mim...
Escrevi na Magnética Magazine uma crítica simples sobre o filme Les Amours Imaginaires que estreou em Portugal no Festival Indie Lisboa 11. Como me passei um bocadinho da cabeça e escrevi demasiado, o texto foi dividido mas pode ser lido na íntegra fazendo cliques vários: parte I e parte II. (No final da página da Magnética Magazine, cliquem no menu CINEMA e está lá tudinho).
Tudo o que quiserem dizer sobre o filme e sobre o texto é muito bem-vindo.
- Anda, parte esse prato! Parte! Parte se és capaz.
- Não quero.
- Vá, tem coragem. Parte esse prato. Manda-o ao chão!
- Não me apetece, já te disse.
- Parte! Não te apetece? Parte-o!
- Já disse que não.
- Mas porquê? Costumas partir pratos? Parte-o! Manda-o!
- Não quero, não me apetece agora!
- Mas costumas partir pratos?
- Sim, já parti.
- Mas sem ser sem querer? Já partiste?
- Sim. Já parti porque me apeteceu.
- A sério?
- Sim!
- Fogo, tu és doido!
After two seconds we forget that we haven't seen each other in months.
Pfff... como se isso tivesse a menor importância para quem não olha o amor com cobardia.
It takes courage!
(A Annie e a Annika andam tão felizes e até vão viajar e o caneco e o camandro. Acampamos à noite na praia, filmamos de tarde, vamos às conferências de manhã: somos hippies intelectuais!)
O dia foi longo. Houve baús poeirentos, roupa lavada estendida, passeios na praia, corridas no parque, beijos e salada de queijo fresco. Depois banho; e para terminar um grande dia nada me faz respirar mais o sabonete de mel do meu corpo do que um Truffaut no sofá.
Amor em fuga, pela milésima vez, será.