Enganem-se os corpos que voam sem saber porque partem. Enganem-se os corpos manchados que confiam na sorte da morte. Enganem-se se haverá paz numa morte temporária.
A tua paz da minha paz, nem pelos teus cortes enterrados te mente.
O querido Pedro desafiou-me para responder a um questionário sobre livros, frases, êxtases literários e outras quantas coisas relacionadas com livros. Eu, infelizmente, admito alguma preguiça em responder, ainda para mais nesta altura de andanças intercontinentais que colocam a minha estante bastante longe. De todas as formas, e achando que o mais interessante é captar alguma essência daquilo que a literatura nos deixa marcado na pele, quero partilhar-vos um acontecimento inesperado que tive o ano passado ao ler "As Vinhas da Ira" do John Steinbeck. Pela primeira vez ao ler um livro, tive plena noção de ler um capítulo (o XIV) e achar que, até à data, nunca tinha lido nada tão maravilhoso. Eu não me deixo iludir; não se enganem... e ainda assim, proponho-vos um exercício de deleite. Disponibilizo o capítulo inteiro (sim, tive que o dissecar) para quem o quiser ler na íntegra. Basta mandar um mail (bolbotenue@gmail.com). Não se preocupem os envergonhados que não faço perguntas, nem peço justificações. Posso é ganhar cúmplices, e isso, é sempre bom.
"As causas escondiam-se bem no fundo e eram simples - as causas eram a fome, a barriga vazia, multiplicada milhões de vezes, fome na alma, fome de um pouco de prazer e de um pouco de tranquilidade, multiplicada milhões de vezes; músculos e cérebros que ansiavam por crescer, trabalhar, criar, multiplicados milhões de vezes. A última função clara e definida do homem – músculos que querem trabalhar, cérebros que querem criar para além das simples necessidades – isto é o homem. Construir um muro, construir uma casa, um dique, e pôr nesse muro, nessa casa, nesse dique algo do próprio homem, é retirar para o homem algo desse muro, dessa casa, desse dique. Obter músculos fortes à força de os mover, obter linhas e formas elegantes pela concepção. Porque o homem, ao contrário de qualquer coisa orgânica ou inorgânica do universo, cresce para além do seu trabalho, galga os degraus das suas próprias ideias, emerge acima das próprias realizações."
Excerto de As Vinhas da Ira deJohn Steinbeck.
A fotografia é conhecida e repetida aqui no blog. Mas como é minha e são os meus livros, acuso-me satisfeita com a reincidência.
E prometo-vos falar-vos de 'foder', do filme Angèle et Tonyaqui no blog. Porque a revista onde escrevo não me permite alguns devaneios... o que até se entende nas instituições com sérias responsabilidades linguístico-jornalísticas (termo, suponho, inventado agora mesmo e cujas autoridades da linguística não aprovarão... but who cares about them, anyway?).
Aqui no blog mando eu e é o regabofe!
Fotograma do filme Angèle et Tony de Alix Delaporte, 2010.
Primeiro apanhei-os numa desculpa esfarrapada porque falavam nas minhas costas e aí obtive a primeira resposta: "São os teus olhos. Estávamos só a dizer que deves andar cansada..."; respondi-lhes que não. Depois foi ela, directamente: "Estás triste?". Fiquei chateada. Decidi então que tinha que perguntar-lhe a Ela. Disse-me de tiro: "Desculpa lá Annie, mas só tu é que ainda não percebeste que andas triste há semanas a fio, foda-se!"
Escrevi um bocadinho sobre o Masculino Feminino na Magnética Magazine deste mês. Para quem quiser meter um olho e admirar-me ao lado do Godard (eu tipo Emplastro ao lado do Godard, entenda-se).
(Para acederem ao texto na íntegra, basta irem ao final da página da Magnética e clicarem no menu 'Cinema'. O texto está lá à vossa espera.)
No portal das finanças oferecem-me um leque de questões de segurança caso perca a minha password que eu, honestamente, não sei nem consigo responder. Oh, porque é que é tudo tão complicado? *Oh, Drama*
Às vezes não interessa o lugar. Começamos com um artigo de um realizador japonês. Vocês sabem... o Nobuhiro Suwa. Primeiro lemos em inglês, criticamos a intenção da tradução. Esclarecemo-nos em português, alemão e voltamos ao inglês. Discutimos a prática. Eu sou a primeira a trazer os factos à luz da técnica. Faço desenhos esquemáticos com câmaras e possíveis ângulos de enquadramento de determinados planos. Falo-lhe das relações que se estabelecem com a luz e com o que está fora de campo. Daqui saltamos para uma nova fase. Falamos das setas que eu desenhei: da direcção bilateral. Das combinações possíveis entre as variáveis. São actores profissionais, não são actores profissionais. O nome dela é Vanda. Cospe para a cama. A imagem vista pelo espectador na sala de cinema é ela. Aspiramos ser precisas com as palavras. Discutimos as palavras exactas que devemos usar. Exploramos outros caminhos. Lembramo-nos de quadros, esculturas, peças de teatro. Só depois vem a literatura. Carambas, sabemos tão pouco aqui... Isso, sabemos nós bem! Não nos preocupamos. Deixamos a teoria... a sociologia, a psicologia, a filosofia. Escolhemos a antropologia. Pensamo-nos. Libertamo-nos do artigo. Estivemos demasiado tempo nisto: "Pedro [Costa] has not taken advantage of reality to fabricate a pseudo-real world; nor has he attempted to preserv some intact fragments of real life. Vanda signifies both Vanda and Pedro, images crystallized through the interaction with the spectator's gaze. She is a representation of new gazes that contemplate how people can live together...Vanda is now. She is here just now...". Rimo-nos muito, claro. Depois calamo-nos por alguns minutos. Há demasiadas coisas a pairar. As pontas dão nós. Não são os mesmo nós, mas são-nos comuns. Precisamo-nos na teoria. Somos na prática. Também aqui e agora. Somos. Sem mais nada. Com falhas imensas, honestamente. Só para isto é que a teoria nos serve. Negamos o fetichismo teórico, inventamo-nos. Estamos felizes. Vemos outra vez o filme português. Dormimos. Fico doente; ela cuida de mim em alemão.
Fotograma do filme No Quarto da Vanda de Pedro Costa, 2000
Desde as 7 da manhã do dia de hoje e num curto espaço de tempo, começaram a chegar vídeos e fotografias do que está a acontecer na Plaça Catalunya em Barcelona. Vídeos como o que publico aqui em cima emergem em questão de minutos na Internet. Não posso deixar de admitir a minha perplexidade perante a actuação dos Mossos d'Esquadra que continuam a bater em pessoas que simplesmente levantam as mãos em sinal de não resistência e pacifismo. É uma verdadeira injustiça e um insulto à liberdade individual constitucional. Por outro lado não posso descansar pelo número de pessoas que conheço e estimo e que estão, neste momento, nas ruas de Barcelona numa tentativa de resistência ideológica.
O que supostamente está por detrás da actuação humilhante da polícia é a pretensão de fazer uma "operação de limpeza" nesta praça onde estão acampadas, há semanas, centenas de pessoas. O objectivo seria garantir a salubridade do espaço público para uma hipotética celebração festiva relativa à vitória do Barça na Champions League amanhã...
BULLSHIT!!
Não consigo controlar a minha indignação perante todo o cenário que se montou. Questiono-me sobre o que podem pedir estas pessoas; senão vejamos que Espanha já vive numa democracia e isto eleva-nos a um problema mais grave. O que se despreza? A democracia? O que lhe sucede? Como chegámos ao ponto em que a democracia é corrupta, violenta, desmedida, pobre, manipuladora e insuficiente?
Outra questão prende-se com o alegado motivo que justifica a "limpeza": o futebol! Ainda há pouco, neste blog, afirmei que pouco percebo sobre o assunto. Mas deixem-me dizer que o futebol, e ainda por cima uma Champions League, é a cara de um capitalismo podre que vivemos hoje em dia. Milhares de Euros que se pagam e circulam sobre uma minoria de pessoas que muito (ou pouco) se esforçam por viver à custa de jogadores que passam 90 minutos a correr dentro de um campo verde (e não estou a falar apenas do jogo em si: falo dos empreendimentos em infraestruturas desnecessárias- que Portugal tão bem conhece-, negócios milionários pelo pé esquerdo de não-sei-quem, apostas, etc.). Acho macabro.
Sem que a força seja recurso, o que observamos são centenas de pessoas que gestualmente (mãos no ar) se rendem à violência das autoridades e ainda assim são espancadas. Não têm armas. Não? Sim, têm! Câmaras fotográficas, câmaras de filmar, telefones, internet! Nas linhas da frente estão dezenas de pessoas que capturam o momento. Vão deliberadamente para o centro dos acontecimentos com o intuito de 'mostrar', 'dar a conhecer', 'gravar'. No fundo, uma forma de romperem o silêncio que esta democracia nos impõe e que nos vem sustendo a respiração há tanto tempo.
A imagem ganha O poder. O poder! Mas apenas quando a imagem é bem vinculada. Quando circula livremente, quando as televisões a mostram e publicam (estive toda a tarde à espera de ver imagens na TVE internacional e só apareceram umas poucas por volta das 18 horas). Ao mesmo tempo há uma preocupação que me atormenta e que se prende com o facto de o espectador se ir habituando aos cenários de horror que vê diariamente. Uma guerra não sei onde? Vê-se umas fumaradas em planos cinzentos ou meio esverdiados e não vemos as caras nas novas guerras cirúrgicas. Não vemos a morte. Habituamo-nos. Não nos toca, não nos atinge, não nos tira o apetite. O espectador tem que estar formado para receber as imagens. O poder da imagem não faz tudo. Há que ser consciente, crítico, analista. Há que ver as consequências, ver o sangue, as lágrimas. Entender a dor não pode passar pelo simples acto de ver o noticiário. Há que fazer mais.
Em que sociedade política é que isto é possível? Não sei. Mas, por certo, não é nesta democracia.
Vá, agora pontapeiem-no e mandem-lhe pedras pelo excesso de liberdade de expressão. Os media são peritos nesta merda. A começar no realizador e acabar na imprensa... foda-se, não há pachorra para tanta hipocrisia junta.