É possível que os ramos se tenham tornado espessos demais. Que enquanto toca no seio direito, leve à boca o sabor de um amargo caule das silvas. Mas das pedras mártires da noite, sobram selvagens e negros os coitos interrompidos por acidentes automóveis. Onde atar-lhe o corpo não lhe é suficiente para abafar o choque e o ramo entre as pernas não lhe segura o desejo. Onde o corpo se cheira a flores de uma tristeza Maria. Mas é o cheiro do alcatrão numa noite sem mais seios, é o cheiro de um doce sofrido. O cheiro do movimento perpétuo. Aliás, pela primeira vez entendemos que o corpo sofre; o corpo não, os pés, as pernas, a cara, o pescoço, o tronco e as mãos. E fazem coisas horríveis, que o corpo diz muito mais que uma mentira. Que o corpo é um tal nervo de duras e imprecisas reacções que não o controlamos nem a interruptores de luz. Se eu pudesse, teria corrido a atar-te o corpo. Impedir-te-ia de te mostrares. Seriam as folhas de Carvalho a impedir-te a boca. Uma meia boca morna de violência ganha. Não foi pelo contrato que assumimos, foi pelas flores que comemos.
Pois a malta vai ver a bola. Benfica-Porto. Tudo ferve. Mas amigo, para todo o sempre a descompostura intelectual permanecerá intacta se fores ver o tal dito jogo de futebol à tasca intelectual da cidade (o Estádio, pronto, está dito o nome), onde podes ser presenteado com o seguinte comentário do individuo barbudo da mesa ao lado; e passo a citar: "Este Garay é no futebol como o García Lorca na literatura!".
Acordou-a com um beijo nas costas, num quente que toca o algodão rosa. De todos os rosas o que lhe apetecia era pele. Dela. Sem misturas de verdades, era intencional. Acordou de barriga para baixo, sentiu-lhe o beijo rosado. Acordar já não era problemático até que as costas eram nuas: -Dormiste de soutien. Desapertou-lho. Beijou pele. Rosas, rosas, rosas.
O importante era saber a quem pertencia ele, quantos poderes das trevas o reclamavam como seu. Era esta a reflexão que nos causava calafrios. Era impossível- e também nada benéfico para uma pessoa- tentar imaginá-lo. Ele ocupara um lugar proeminente entre os demónios (...)
(...) da força e dos manicómios, como poderiam imaginar a que especial região das primeiras eras os pés livres de um homem podem conduzi-lo pelo caminho da solidão- da solidão absoluta (...) - pelo caminho do silêncio- do silêncio absoluto (...)
Quando desaparece temos que recorrer à nossa própria força inata, à nossa própria capacidade de fidelidade. Claro que podemos ser idiotas ao ponto de errarmos, demasiado estúpidos até, para sabermos que estamos a ser atacados pelas forças das trevas. Admito que nenhum idiota negociou, jamais, a venda da sua alma ao diabo: ou o idiota é demasiado idiota, ou o diabo é demasiado diabólico (...)
A surpresa é que as dicotomias nunca estiveram tão presentes: "It seems like nobody's happy now, It feels like nobody's happy now"; "Keep me up, keep me down, Keep my feet on the ground". Mas o problema é que ninguém nos ensinou a suster a respiração: "Love, love, love, love, It's just a song".
E parece-nos que é uma questão imparcial; mas é altamente parcial.
Em Janeiro de cada ano a blogosfera "reúne-se" para dar continuidade à tradição de fazer listas magníficas dos melhores filmes do ano. Como sou incapaz de juntar o Midnight in Paris e o Restless numa lista, resta-me ser visionária e superar a altruísta tarefa da classificação do Cinema em dezenas. Por todos estes importantíssimos dados e por continuar a querer honrar a blogosfera decidi reinventar o rigor das listas e eleger os melhores FOTOGRAMAS do ano. Han? Han? Han?
Aqui vão eles:
Tchapamm!
Tchapamm!
Tchapamm!
Tchapamm!
Tchapamm!!
(Fotogramas do filme Angèle et Tony, Alix Delaporte, 2011)
Fui ver a peça Exactamente Antunes no TNSJ no Porto e não me entusiasmei, admito. Não consigo "ver" o Jacinto Lucas Pires. Sempre tive dificuldades. Mas isso não significa que Exactamente Antunes não reporte com bravura para Almada Negreiros que, caraças... é maravilhoso!
Agora sei de quando ele me falava que as mulheres deveriam ter a iniciativa e o poder. Andava fascinado, dizia que gostava delas assim e que nunca as tinha encontrado mas que queria ser roubado por elas em primeiro lugar. Agora entendo-o perfeitamente. O que ele queria era que, pelo menos uma vez na vida, não fosse ele o único a encabeçar a culpa toda do lado dele. Essa culpa que o derrotará uma, e outra, e outra, e outra vez.
(fotograma do filme O Homem Sem Passado, de Aki Kaurismäki, 2002)
Haveria uma altura em que o suborno vinha com uma ridícula mesquinhez. Um certo exercício de vénias mexericas aos pobres e uma inglória dor de costas. Continuo a subornar-me parcelarmente, de verdade. Mas hoje, se quiser jogar à bola debaixo da tempestade, conscientemente, jogo à bola debaixo da tempestade. Entender que o suborno é a própria tempestade é um alívio TÃO grande.
(a fotografia é de alguém lá da casa paulista, talvez minha, mas não posso garantir.Paraty)
Voltar a Portugal, uma desavença académica, o coração partido, o Teatro Aveirense, os milhares de concertos da Orquestra Filarmonia das Beiras, as entrevistas de trabalho desinteressantes, o coração partido (o mesmo descrito anteriormente). As críticas para a Magnética (magazine), o desespero, a tristeza, o Concurso, a Bolsa, o coração partido (o mesmo descrito anteriormente). As tuas mãos-desespero na cabeça, o carro a arrancar, malas, bagagens, São Paulo, Brasil. O outro continente, o coração vazio, o coração partido (o mesmo descrito anteriormente). O trabalho, a felicidade, a MOSTRA, a felicidade. As responsabilidades, o vício do trabalho, o perfeccionismo, a verdade, a clareza, o bilhete de avião para o Atom Egoyan, o 'Habemus Papam' do Moretti, a vitória de um Festival, a morte de um herói, continuar o trabalho do herói: o Festival Internacional de Cinema de São Paulo. Os brasileiros, a amizade eterna, as cervejas geladas, o profissional, o pessoal. As festas, as noites, o Hotel. O japonês. O fim, os relatórios, furar o septo nasal. A Argentina, o Paraguai, traficantes de droga em autocarros, 16 horas no autocarro. Querer perder um amigo para sempre. Realmente querer. Voltar. O futuro. Lá, cá. Malas, bagagens. Vôos imensos. O Natal, os abraços, as prendas. O coração repartido. As dúvidas. São Paulo, Lisboa. O Intercidades, Lisboa.
E agora que estou quase no fim só me apetece pensar no começo: quando as masmorras do Cinema São Jorge eram casa. Quando os projeccionistas diziam com as bobines nas mãos: "Venha Annie. Acabei de o montar e vou projectar o filme agora". Eu largava os meus problemas do cinema português e subia ainda mais as masmorras. Entrava na sala fria e escura e o som inspirava-me a película num feixe de luz. Este foi o começo da minha fascinação pela cabine, pela sala escura, pelo que vem antes. Pelo esforço de colocar aquele filme naquela bobine.
É engraçado... porque isto não foi há muito tempo... E em breve termina mais uma etapa da menina emigrante que, embora muitas vezes tenha que abandonar a sala de cinema porque há outras e outras coisas relacionadas com Cinema que têm que se resolver com urgência, mas, que ainda assim, espera sempre os 3 primeiros minutos de filme na sala de cinema. A menina que olha a cara do projeccionista. Que lhe agradece sempre a magia de me dar o olhar daquele feixe de luz.